Ok, nem todos os dias. Mas tive dias em que escrevi tanto que valeram por semanas inteiras. Meses inteiros. Eu devia ter uns 10 anos quando a minha mãe me deu o meu primeiro diário. Ela deu-mo como uma pequena recompensa por eu estar a ter um desempenho muito bom na escola. Mas não mo deve ter dito, ou então não o frisou, porque ela queria ser coerente com uma das máximas dos meus pais ao educarem-me: a escola só me traria benefícios, assim como o trabalho que eu ali desenvolvesse. Seria um trabalho que eu faria para mim, não faria sentido presentear ainda mais uma coisa que já por si é um presente. E, aqui entre nós, eles não pensariam em tal "presenteamento", em boa parte, porque eu tinha rasgos de perfeccionismo em tudo o que fazia. Não era preciso estimular isso ainda mais. Também ninguém me dizia que eu tinha de trabalhar ou me mandava estudar. Eu era do mais trabalhador e do mais autónomo que podia haver. Mas nessa altura, eu ainda era equilibrada. Mais tarde é que "viajei na maionaise". Mas mesmo assim, consegui ter o bom senso para pôr um travão na altura certa. Venha de lá o diário.
Foi uma paixão que começou nesse dia e nunca mais acabou. Aliás, nem a minha mãe sabia o que por ali vinha, e que eu viria a ser uma viciada na escrita sem emenda. A escrever longos testamentos por tudo e por nada. A ser das poucas pessoas do mundo que ainda troca correspondência via CTT; papeis com coisas escritas; postais ou mesmo só folhas (adoro texto corrido, sem bonecada, pelo que prefiro a versão não postal). Mesmo quando me correspondo com as pessoas por e-mail, é parecido. Claro que tudo isso já foi muito pior; hoje não tenho tempo para caprichos, embora continue a lutar por encontrar tempo; escrever muito é o meu capricho favorito.
O meu diário tem uns 22 volumes efectivos, com mais apêndices (pequenos blocos que vou enchendo quando ando por aqui e por ali e não tenho o diário propriamente dito à mão). Isto para já não falar em tudo o resto. Capas e dossiers sobre isto ou sobre aquilo, mais um caderninho disto e uma agenda de aqueloutro. Quando era miúda descrevia cada detalhe, cada pormenor do meu dia a dia. A cor do céu, a cor das meias da amiga, o nome completo da amiga, cada brincadeira que havíamos feito, a descrição completa de cada folha de bloquinho colorido e com cheiro que trocámos, para as respectivas colecções. Eu era minuciosa. Hoje, além de não conseguir ler esses diários (é demasiada descrição!), utilizo-os para um propósito ainda mais intragável: divagar. E se fosse assim, e se tivesse sido assado. Acho que vai ser cozido, a minha intuição diz-mo, estou quase certa. Os anos fizeram com que eu me arrogasse no direito e capacidade de prever o futuro. Muitas vezes prevejo mesmo, com seria de esperar de uma pessoa quase idosa, como eu. Neste mundo, os padrões repetem-se um número considerável de vezes, embora a sabedoria deva dizer que devemos manter a mente aberta e não analisar a realidade com muitas certezas e preconceitos. Tenho pena da pessoa que algum dia tiver de ler os meus diários, espero que isso nunca venha a acontecer a ninguém. As partes divertidas estão em blogues e na minha memória, algumas já com partes significativas apagadas pelo tempo. Lembro-me de uma ou duas descrições mais engraçadas, apesar de tudo. Talvez um dia destes eu venha aqui transcrever algumas coisas. Se eu tiver coragem de me pôr, efectivamente, a ler os bichos. Entretanto, creio que encontrei uma solução de organização de diários: em dossiers cheios de folhas, coloco as divagações. Em bloquinhos, caderninhos, livrinhos e agendinhas mais bonitinhos, escrevo as coisas que é suposto serem para se ler. Assim tenha eu tempo de escrever seja o que for...


Sempre que tinha um diário, fartava-me rapidamente dele x)
ResponderEliminarJá eu, continuo diario-dependente :) Ainda hoje escrevi nele!
ResponderEliminarSe nem com o meu blogue sou fiel. Leio muito, mas escrevo pouco, assim sou eu. Rais parta, que nunca mais publiquei nada!
ResponderEliminarOh, Mafalda, então? Mal empregado blog! A escrita, para mim, é uma necessidade, não uma obrigação!
ResponderEliminarEu, depende das alturas. Às vezes é mesmo uma obrigação! Resta saber por que motivo criei o blog...
ResponderEliminarNão desesperes :) As inspirações vão e vêm, aguarda que ela volta. Só não te pressiones a escrever, não sai nada de jeito!
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