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domingo, 17 de setembro de 2017

U2 Versus Antígona - Parte II


"Não sei quem venceu... se Bono Vox e a sua trupe, se a desgraçada da Antígona e o rio de sangue vertido daquela história sem original desfecho... acho que no fim ganharam todos, porque consegui as duas coisas... ver a peça e ter os bilhetes dos U2. Diga-se antes, consegui as três coisas: além de tudo, consegui realizar um louco sonho secreto, daquelas anormalidades que eu às vezes tenho e que ninguém compreende, ou pelo menos pouca gente, o que me deixa exultante de felicidade, pois não existe nada mais fashion do que ser-se incompreendido; com o tempo, aprendemos a transformar certas coisas de um tormento a uma brincadeira - eis a verdadeira libertação... afinal de contas, quem perde não sou eu... mas adiante, que não é esse o assunto da presente missiva. E onde ia eu? Ah! No louco sonho secreto de passar uma noite ao relento à espera de um bilhete para os U2... e este nem foi propriamente a sua concretização mais literal, foi uma versão alternativa bastante aceitável... pois no meu louco sonho secreto, eu dormia à porta de um qualquer recinto grande numa qualquer grande cidade, de tenda e material de campismo, e manta de trapos, pique-nique, música, baralho de cartas, com um bando de amigos atrás... mas a versão alternativa não lhe fica aquém... os amigos não os levei de casa, encontrei-os por lá mesmo, de há longa data, amigos, conhecidos... até um antigo professor meu que, face ao meu desabafo "mas que grande doideira", não fez mais se não concordar prontamente... "só os U2 me fariam cometer uma loucura destas..." - dizia... e eu pensava que não seriam apenas os U2 que me fariam a mim cometer uma destas loucuras, mas uma daquelas forças que me acometem de quando em vez, uma daquelas a que eu não consigo resistir, que tenho de fazer, seja ela loucura ou não... Entretanto eu punha a conversa em dia, conversa de há longa data, por sinal... gente que não me via há milénios pareceu-me estranhar certa mudança, porém... há coisas que nunca mudam e isso quem me conheceu percebe... não necessita grande sensibilidade para descortinar que apenas sou eu mais eu que nunca... e uma amiga que, enquanto estivémos a tagarelar dentro do carro, ligara as luzes, e depois de sairmos se esquecera delas ligadas... amiga que tinha com quem se revezar e chegando às 6 da matina (hora em que a festarola começou a arrefecer, diga-se de passagem) chegou o "revezo", pelo que a moçoila logo deu à sola, cheia de sono que estava, e de canseira em cima do costado, afinal de contas sempre é sexta-feira, fim da semana para aqueles afortunados que têm onde trabalhar ou desafortunados que não têm forma alternativa de subsistir neste mundo. Daqui a nada volta ela que não tinha bateria, que tinha deixado as luzes acesas, e vai a malta toda empurrar o carro, eu também queria, mas eu era a única mocinha, o resto eram tão só marmanjos, pelo que desisti de me armar em carapau de corrida e lá os deixei ir empurrando o carro ladeira a baixo, o carro aos solavancos, eu a correr atrás, pois não queria perder o desfecho da história... iria o carro chegar a fundo da descida sem pegar? A pobre moça ainda sofreu um insulto disfarçado de bom humor, do tipo "gaijas", sai lá daí, deixa ir um gaijo para o teu lugar... mas creio que a insultância não fora compartilhada pelos demais gaijos, pelo que nova tentativa foi feita e o carro lá foi... sms a caminho: vai dar uma volta com o carro ou bateria volta a descarregar; ela: quero cá saber, que se lixe, logo se vê, o meu pai mais os cabos dele que se amanhem, que é para isso que foram inventados os pais... e os cabos (ok, não foi nada disto, mas isso agora não interessa nada). Não sei se foi para isso que os pais foram inventados, sei que os meus dois foram-me lá levar um cobertorzinho, comidinha, livrinhos para ler, and so on, and so on. Ahhh... é boommm ter pais assim... :) Claro que eu apenas usufruí das encomendas quando mais ninguém aguentava e começou tudo a recolher aos carros ou coisa do género, já que a hora da abertura da loja estava para breve (e, neste caso, faltarem duas horas é estar para breve), assim como a hora da verdade; quem fica com que bilhetes e coisas assim... além disso, havia que preparar para mais outra longa jornada de espera... afinal a abertura da loja ia simplesmente significar que a fila ia começar a encurtar, o que, para suceder, requereria o seu tempo...
Mas até lá foi um ir e vir de carrinhos de cervejas, alguém arranjou grelhador, assaram-se castanhas e febras também... arranjou-se também guitarra, ou viola, não sei, sei que o rapaz cantava que se desunhava, ele era faduncho, ele era o que lhe vinha à cabeça... até palmas por ali se bateram, às tantas da madrugada, a sorte é que por aqui ainda os centros comerciais se vão fazendo depois que acabam as casas e não em cima delas e as cidades não crescem tão depressa que os seus limites atinjam os dos templos do consumo a velocidade detectável por sentidos menos atentos... e já que não se podia fazer a festarola à porta do centro comercial, que o dono não deixa que sujemos o relvado (mesmo assim por lá ficaram caricas em considerável quantidade, certamente superior à que seria desejável, algumas delas ainda lá estão, marcando o acontecimento), vá de se fazer a festarola noutro sítio qualquer... na rotunda, pois bem, para combinar com a tosga...
Nunca um banho me houvera sabido tão bem... nunca a minha roupa de dormir me parecera tão macia e confortável... nunca as camas e sofás desta casa me pareceram tão acolhedores e irresistíveis (ok, minto, isto é só porque eu não sabia o que dizer para terminar o post; milhentas vezes cheguei em estado semelhante - ok não tão desgraçadamente - a casa e me atirei ou para dentro da banheira ou para vale de lençóis)... mas uma coisa é estranha... eu já tinha um bilhete... e mesmo assim uma sensação magnífica de vitória... a pessoa maravilhosa responsável pelo meu outro bilhete sabe que lhe estou grata como se tivesse ficado com ele... mas este que eu consegui tem uma história... foi conseguido com as gotas do meu suor... ou melhor, com os tremeliques do meu tiritar numa noite de Outubro, um Outubro mesmo assim não tão frio como outro qualquer Outubro dos Outubros da história das temperaturas à porta do Forum..."
(11 de Novembro de 2009)


Antígona de Sófocles, por Brecht



Gosto de consumir cultura e arte. Muitas das minhas experiências mais significativas dizem respeito a isso mesmo, pelo que faço colecção de folhetos, bilhetes de tudo aquilo a que fui assistindo e que fui fazendo de há uns bons anos para cá. Para mim é um motivo muito significativo para haver convívio com amigos. O simples sentar na mesa do café sem fazer nada a dar à língua não é, definitivamente, o meu ideal de convívio. Para mim, sentir que estou a fazer algo de útil, a aprender alguma coisa, a evoluir de alguma forma, é algo de absolutamente essencial ao meu bem-estar. A cultura nem sempre foi o que é neste país. Apesar de tudo, acredito que vivemos uma época como nunca houve outra, porque o regime salazarista desincentivava o consumo do que quer que fosse que não lhes dissesse respeito aos interesses deles. Depois do 25 de Abril, as pessoas não se mobilizavam para ir ao teatro, a concertos, foram influenciadas a achar que tudo isso era uma seca. Entretanto, houve  um governo que reabilitou uma série de salas pelo país fora e estimulou a cultura de forma bastante significativa, o que me afectou de forma determinante e creio que ao país também, pelo menos nesse aspecto. Eu e a minha vida, nunca mais voltámos a ser os mesmos. Mas comecemos não pelo início; antes por uma ponta: Antígona, de Sófocles, por Brecht. Também ao meu passado dizem respeito outros blogues, assim como posts que anteriormente realizei nesses mesmos blogues que acabei por tirar de circulação por entender que já não faziam sentido. Revejamos tudo isso.




"Cruzadas, guerras santas, choques civilizacionais, interesses económicos, guerras preventivas, territórios ocupados. Ontem como hoje o cenário do mito Antígona atravessando os séculos sem envelhecer, para desconsolo e angústia dos que amam a paz e se indignam com tanto atropelo aos direitos de todos os homens. Quando a Humanidade parece estar esquecida da sensatez e os ares pesam sombrios e violentos, sobre tanto céu do nosso planeta, pode a arte do teatro ficar de fora no desafio à reflexão sobre a nossa própria conduta? Na busca incessante de um repertório onde a condição humana seja retratada, chegámos a um dos mais fascinantes momentos da origem do teatro, legado da Humanidade; a tragédia grega, que segundo Aristóteles "é a representação de uma acção memorável e perfeita, de magnitude competente, recitando, actuando, cantando, declamando cada uma das partes, por si e separadamente e que move a compaixão e o terror expostos À moderação destas paixões". A obra apresenta o dilema do entendimento da contradição entre dois conceitos fundamentais do direito; o direito do indivíduo e o direito do estado. Creonte despensa as obrigações implícitas aos laços de consanguinidade, e Antígona valoriza-os ao ponto de assumir um conflito com o Estado. Ambos actuam com a intransigência que caracteriza os heróis. Duas fontes antagónicas do direito com dois protagonistas de poder desigual. O conflito entre a lei divina e a humana deixa visível o inevitável contraste entre a autoridade masculina, ditada por Creonte, e a resistência feminina, encarnada por Antígona. Esta tragédia permite-nos a reflexão sobre o mito, a solidão, a condenação, o suicídio, a morte. A versão de Brecht é realizada no rescaldo das cinzas da segunda guerra mundial. Antígona, o texto de Sófocles, representado pela primeira vez no ano de 422 aC tem exercido um particuar fascínio sobre gerações de espectadores e criadores despertando o desejo de o redescobrir à luz de novas reflexões, actualizadas na passagem dos tempos. A introdução de um prólogo contextualizado no ambiente deste conflito esclarece de forma definitiva e inequívoca o sentido universal e ao mesmo tempo contemporâneo desta obra. A nossa proposta procurará uma abordagem intemporal e metafórica que terá como pano de fundo os conflitos e o debate civilizacional que assola a sociedade contemporânea." 
(retirado do folheto informativo fornecido antes da peça) 


 "Antígona (em grego Ἀντιγόνη) é uma figura da mitologia grega, filha de Édipo e Jocasta. A versão clássica do mito sobre a Antígona é descrita na obra Antígona do dramaturgo grego Sófocles, um dos mais importantes escritores de tragédia. Esta obra é a terceira parte da Trilogia Tebana, os quais também fazem parte Édipo Rei e Édipo em Colono. A peça é feita pelo prólogo, que nesse caso é dialogado, onde as irmãs Antígona e Ismênia conversam e nos dão uma visão geral dos acontecimentos; cinco episódios; cinco estásimos, que são as entradas do coro em cena trazendo informações ao público sobre o assunto da peça; e o êxodo, parte final. Filha de Édipo e Jocasta, que tinham mais três filhos, Etéocles, Ismênia e Polinice. Foi um exemplo tão belo de amor fraternal quanto Alcestes foi do amor conjugal. Foi a única filha que não abandonou Édipo quando este foi expulso de seu reino, Tebas, pelos seus dois filhos. Seu irmão, Polinice, tentou convencê-la a não partir do reino, enquanto Etéocles ficou indiferente com sua partida. Antígona acompanhou o pai em seu exílio até sua morte. Quando voltou a Tebas, seus irmãos brigavam pelo trono. Polinice se casa com a filha de Andrastos, rei de Argos, e junto com este arma um ataque contra Tebas, que é chamado de expedição dos "Sete contra Tebas" onde Anfiarus prevê que ninguém sobreviveria, somente o rei de Argos. Como a guerra não levou a lugar nenhum os dois irmãos decidem disputar o trono com um combate singular, onde ambos morrem. Creonte, tio deles, herda o trono, faz uma sepultura com todas as honras para Etéocles, e deixa Polinice onde caiu, proibindo qualquer um de enterrá-lo sob pena de morte. Antígona, indignada, tenta convencer o novo rei a enterrá-lo, pois, quem morresse sem os rituais funebres, seria condenado a vagar cem anos nas margens do rio que levava ao mundo dos mortos, sem poder ir para o outro lado. Não se conformando, ela enterra Polinice com as próprias mãos e é presa enquanto o fazia. Creonte manda que ela seja enterrada viva. Sua irmã Ismênia tenta defendê-la e se oferece para morrer em seu lugar, algo que Antígona não aceita, e Hêmon, seu noivo e filho de Creonte, não conseguindo salvá-la, comete suicídio.Ao saber que seu filho havia suicidado Eurídice, mulher de Creonte, também se mata." 
(da Wikipédia)


Sobre a companhia de teatro: " O TEATRO DAS BEIRAS foi fundado em 7 de Novembro de 1974 com o objectivo de produzir espectáculos teatrais com regularidade. A partir desta data o Teatro das Beiras produziu mais de sessenta espectáculos de autores tão importantes como Gil Vicente, Goldoni, Brecht, Aristofanes, José Triana, Molière, Pirandelo, etc. Com estes espectáculos o Teatro das Beiras realizou mais de 2.000 representações para mais de 200.000 espectadores, tendo participado em festivais de teatro por todo o país. Em 1994 ao atingir os 20 anos de actividade ininterrupta, o Teatro das Beiras caminhou para uma nova etapa: a profissionalização da companhia de teatro, que veio a acontecer em Novembro desse ano. Em Janeiro de 1998 é atribuído à Companhia o Diploma Utilidade Pública. Todos estes anos de actividade profissional desta companhia, provaram a eficácia e consistência pela quantidade e qualidade do teatro produzido e da sua relação com o público, a inevitabilidade da importância deste projecto. Os dados estatísticos embora francamente positivos em número de montagens, de espectáculos apresentados e do aumento muito significativo de públicos de todas as idades, não analisam aquilo que o Teatro das Beiras supõe poder contribuir no sentido formativo dos públicos que conseguiu sensibilizar, sem paternalismo, proporcionando a educação do gosto, a reflexão do mundo e do homem, no fundo aquilo que o teatro como espaço de reflexão sobre a condição e natureza do homem pode proporcionar. O trabalho regular e sistemático com o público da região cumpre uma missão de serviço público na democratização do acesso aos bens culturais, no qual nos orgulhamos de participar, mantendo um projecto de criação artística activo e preocupado numa cidade do interior. O número de espectáculos apresentados no espaço nacional, a convite de várias Instituições de promoção e divulgação cultural, atestam o facto desta companhia, comparticipar activamente no crescimento qualitativo verificado na produção artística nacional. O Teatro das Beiras é sem complexos um projecto de descentralização para a região da Beira Interior que assiduamente mostra o seu trabalho por todo o país."


Eu adoro, simplesmente adoro clássicos... eu sei que, geralmente, são dramalhões... e eu não acredito em dramalhões... mas há, de facto, algo que me fascina... aquela forma "trabalhada" de falar, sempre em recitação, uma vez que há um livro, um clássico, servindo de base aos próprios diálogos... as ideias e as formas de ver das diferentes épocas... a constatação da distância e simultaneamente da proximidade das questões colocadas... é sempre interessante a ideia de que a intransigência, assim como o esquecer dos sentimentos alheios, levam à ruína certa... claro que, nos dias de hoje, algo mais elaborado seria, talvez, mais adequado, afinal de contas, somos mais complexos... mas é curioso, pois a arte de hoje foi construída em cima dos alicerces lançados por este tipo de obras, que hoje constituem estereótipos, alguns deles semi-obsoletos, outros desconcertantemente e "preocupantemente" actuais. Há muito que não assistia a teatro; e de cada vez que o faço, recordo-me do quanto gosto de teatro... da representação partilhando da mesma atmosfera de quem assiste... sentem-se as energias, as vibrações... acho que a partir do momento em que possui alguma qualidade, é sempre um espectáculo único.
(28 de Outubro de 2009)



 Creio que este foi o dia, ou melhor, a noite, em que os bilhetes para os U2 foram postos à venda um pouco por todo o país, para um segundo espectáculo, a realizar-se num domingo, uma vez que o primeiro espectáculo, a realizar-se num sábado, estava esgotado. Lembro-me do que penei para tentar conseguir bilhetes para sábado, do que pedi à minha mãe que tentasse alguma coisa na net. Estava a dar aulas a adultos, nessa altura. E estava a tentar trabalhar com a questão dos bilhetes latente (difícil). Caramba, não é que fosse assim tão importante. Mas que raio, não havia de morrer sem ver os U2! Na altura, eu gostava bastante (e agora ainda gosto, só já não é tanto). E tinha motivos muito especiais e afectivos para querer estar no Estádio Cidade de Coimbra no dia do concerto. Mas para sábado, nada se conseguiu. Entretanto, a gente que ficou de fora foi tanta ou tão pouca, que os managers e essa malta toda lá puseram em andamento a novidade: os U2 iriam dar um segundo espectáculo em Portugal, logo no dia a seguir ao primeiro. E desta vez, haveria bilhetes um pouco por todo o país. Anteriormente, tive de me deslocar a Coimbra se quis pelo menos tentar comprar os bilhetes. Lembro-me de, no fim de semana anterior, ter ido a Coimbra de propósito ver se conseguia alguma coisa. Chegámos mais ou menos cedo, mas já a fila saía da Worten do Centro Comercial Dolce Vita do Estádio, e dava uma bela curva por ali fora. Ainda me pus na fila, mas a certa altura alguém vem dizer-nos que já só faltavam não sei quantos bilhetes. Fizeram-se as contas e muita malta foi para casa. Foi simpático, afinal poupou ainda mais espera em vão a muita da gente que ali estava. Estávamos a falar de comprar bilhetes para um concerto que se iria realizar dali a mais de um ano. Eu nem sabia muito bem onde iria estar a trabalhar nessa altura, se seria fácil ou difícil chegar a Coimbra no dito fim de semana... Mas a este respeito, continuarei a falar no post seguinte.