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sábado, 16 de setembro de 2017

See snow



A primeira vez que eu vi neve era miúda. Cheguei, ao longo da minha vida, a ver neve ao pé de casa, uma raridade no país em que vivo, de clima cada vez mais quente.

Lembro-me de estarmos a subir a Serra da Estrela e eu começar a ver uns farrapos de neve junto à estrada. Comecei aos guinchos, a dizer ao meu pai que parasse o carro, que eu queria ficar já ali. "Mas mais lá para cima há mais, isto não dá para nada, não dá para brincar", diziam os meus pais. Queria lá eu saber, eu queria era mexer naquilo.

Quando saí do carro e finalmente senti a neve nas minhas mãos pela primeira vez, senti-a já num estado próximo do gelo. A neve estava escorregadia e gelada à superfície. A vida tinha-me reservado a experiência da neve fofinha para mais tarde. Fazer um boneco de neve, coisa que eu tanto queria, naquelas condições, revelou-se bastante mais complicado do que eu havia suposto. Afinal, parecia que havia de ser só fazer umas bolas com a neve. Pois, mas se com ela fofa é mais complicado do que parece, com ela gelada é muito complicado. Acho que ainda fiz uma coisa esquisita qualquer, assim uma espécie de mini-monstro dos esgotos, muito mal amanhado, acho que anda lá por casa dos meus pais o registo fotográfico.

Creio que ainda foi na Serra da Estrela, mas uns bons anos mais tarde, que eu vi cair neve a valer pela primeira vez. Cair do céu, lá de cima cá para baixo. Já havia visto na minha cidade certa vez, mas foi tão pouco que mal se havia percebido. Dessa vez, pude senti-la fofinha, acabada de aterrar no chão. Uma experiência verdadeiramente mágica. Dessa vez, fomos também à Guarda, creio que depois da estarmos na Serra, e vimo-la vestir-se de branco, num sentimento que era um misto de deslumbramento e medo. Sim, medo de para ali ficarmos retidos, ou que algo esquisito acontecesse. Ao mesmo tempo que nos extasiávamos com o espectáculo. Dessa vez, não chegámos ao topo da Serra, porque a meio caminho demos com as estradas todas fechadas. E mesmo assim, ainda conseguimos passar para algumas que fecharam pouco depois da nossa passagem. Sem correntes nos pneus (andámos para comprar, mas nunca chegámos a fazê-lo), ainda vimos o carro deslizar. A sério, não tem graça nenhuma. Fomos apanhados um pouco desprevenidos, mas felizmente correu tudo bem. Foi dos dias mais mágicos e mais espectaculares da minha vida.

Um outro dia mágico e espectacular, foi um em que eu vi a minha cidade da altura (minha ex na actualidade), todinha coberta com um magnífico manto branco. Durante a manhã, toda ela se cobriu. Não houve aulas nas escolas e as "docas" estavam cheias de miúdos e graúdos a atirar bolas de neve e a escorregar por ali fora. Os carros à porta da nossa casa estavam completamente cobertos. A gata não quis aventurar-se a ir para o quintal explorar aquela coisa fria e esquisita. Mas que estava muito intrigada, isso estava. No facebook, as fotografias de neve multiplicavam-se. Era a loucura total. Fui muito feliz nesse dia.


quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Lay in a hammock


Costumávamos ter uma no quintal. Tinha os buracos grandes, facilmente uma pessoa enfiava coisas por ali. Ficávamos com o corpo marcado se lá estivéssemos muito tempo. Mais que deitar-me nela, o que era uma verdadeira aventura, sentava-me, de lado. Não propriamente a ler, mas por curtos períodos de tempo, simplesmente a observar e a contemplar, coisa que não podia fazer muito prolongadamente, pois o meu espírito inquieto não me permitia estar sem fazer nada durante períodos muito longos. Já deitar, era desafiar a gravidade e as leis da Física. Mas foi bom vencer o desafio de conseguir deitar-me numa coisa que balança por todos os lados. Era, efectivamente, um desafio conseguir permanecer mais ou menos quieto ali. Acredito que haja outras redes de cordas mais suaves, ou até sem buracos. Aquela conseguia magoar o corpo. Afinal, a aventura da rede fora uma mera experiência num quintal em que quase metade do ano não se pode estar por ser demasiado quente, enquanto na outra metade também não se pode estar por ser demasiado frio. Um quintal, onde gostaríamos de ter colocado tantas outras coisas, mas em que o clima dado a picos de temperatura não permitia grandes aventuras. Não permitia grande permanência. Era pena. Se tivesse um quintal assim na cidade em que vivo agora, certamente poderíamos desfrutar muito mais. Agora há umas varandas grandes, mas ainda assim, demasiado pequenas para as tais grandes aventuras. Era bom estar na rede, mesmo a rede sendo desconfortável. Eu diria mesmo, um bocado agressiva. Mas aquele quintal não justificava grandes investimentos do género, já que só lá conseguíamos parar durante alguns dias por ano. Entretanto, ainda li partes de livros deitada na desconfortável rede. Enquanto o sol não dava lá directamente ou, estando ela à sombra, não se tornava demasiado frio Foi, inclusivamente, na rede, que eu estava talvez da única vez que uma abelha, ou vespa me picou.  Senti algo entre os dedos, ainda me lembro, da mão direita. Não me passaria ela cabeça que tal seria possível, pelo que o primeiro impulso foi fechar a mão, juntar os dedos, apertar o bicho, precisamente aquilo que não deveria ser feito. O resultado, foi a punição que já seria de esperar. Aquela dor que todos dizem ser horrível, mas que eu nem achei assim tanto, apesar de tudo. Ou a bichana não foi assim tão má para mim. Em conclusão, nesse dia não houve mais leitura, provavelmente nem na rede nem em mais lado nenhum. Lembro-me da minha mãe me dar uma faca e dizer que era bom pôr a lâmina em contacto com a picada. Dizem. É capaz, mas a mim doía-me na mesma. Não me lembro de muito mais do que isso, mas calculo que voltar a pegar no livro pudesse ser, no mínimo, desconfortável. E, com a dor, a concentração para a leitura seria capaz de não ser a melhor. Acho que aquela rede não gostava mesmo que a usassem, Talvez tenha combinado algo com os insectos. É possível que ainda para lá ande. Eu já tinha acabado o meu curso e ainda me lembro dela montada e de lá estar a ler o Código da Vinci, mesmo no auge das polémicas que causou inicialmente. O chão do quintal é irregular. As pedras do chão não são lages, são restos de mármores de diversos tamanhos e feitios, colocados aleatoriamente, com cimento pelo meio. E o terreno desce ou sobe, consoante a zona do quintal em que nos encontremos. A juntar à inquietação da própria rede, vinha a inquietação provocada pelo equilíbrio instável em que se encontrava, sobretudo se a quiséssemos à sombra das árvores. Mas tenho algumas saudades. Se bem que não sou muito de saudades; sou mais de sentir que gostava de ter um quintal aqui, onde estou agora e onde pudesse pôr uma rede, de malhas menos largas e cordas mais macias, num chão que pudesse ser a direito.