(Burano)
Viajei por várias cidades do Norte de Itália: Bolonha, Veneza, Verona, Florença... Visitei outras cidades, menos proeminentes, mais igualmente belas, como Siena, Ravenna e a fantástica ilhota de Burano. Deve haver mais, mas agora é tudo o que a memória me permite recuperar. Muito andámos nós de comboio. Também andámos de barco. E a pé. Andámos muito a pé. Creio que também visitei Murano. Ah, e Pordenone. Ninguém ouviu falar de tal local (salvo seja), mas é uma cidadezinha encantadora, onde moravam (não sei se ainda moram), os tios de uma amiga da minha amiga, que havia estado em casa destes e, por algum motivo, não havia trazido toda a bagagem de volta para Portugal. Nós fomos lá buscar a bagagem restante da rapariga, já que íamos de passeio. Os senhores receberam-nos maravilhosamente bem. Lembro-me de ter tomado o banho dos justos e comido verdadeira pasta, só com garfo, numa mesa posta no jardim, ao pôr do sol, já mais para a noite do que para a tarde. A conversa não foi muito fácil, uma vez que só o tio da rapariga falava português. Eu deixei-me ficar caladinha a observar e a ouvir, que é assim é que se aprende. Eu era muito assim. Às vezes ainda sou. E quando não sou, acabo sempre por chegar à conclusão que devia ser mais. Em boca calada, não entra mosca nem sai asneira.
Na "casa Erasmus" da minha amiga, Bolonha, acabámos por não comer assim tanto. Decidi só pensar em colocar o essencial no frigorífico, a partir do momento em que soube que um espanhol me tinha comido o iogurte (sem que eu nunca chegasse a ver as trombas do dito cujo, salvo seja, e muito menos a dar autorização para que comessem a minha comida - nada contra, mas ainda hoje me irrita estar de pensamento fixo em algo que penso que tenho e depois vai-se a ver e afinal já não tenho). Tinha de ser um espanhol (nada contra os espanhóis, ok? só que... pronto). Mas dessa viagem retenho na memória algumas imagens magníficas e uma delas é a desse jantar e das silhuetas das coisas e das pessoas mergulhadas naquela pouca de luz restante. Eu sentir que nem acreditava naquilo tudo. Logo para mim que era tudo tão difícil. Uma coisa destas estava longe de passar pelas minhas melhores expectativas. E, aliás, tantas outras coisas que depois sucederam.
(não continua. também, já chega de tanta pasta, não?)


