quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Move out on my own


Aconteceu tarde. Afinal, para quê? É que poupa-se dinheiro. E tem-se companhia. Entretanto, eu tinha certas mordomias ainda, além de que ninguém me chateava. Onde é que eu havia de ir onde estivesse melhor? Só para provar a mim mesma que era capaz de viver sozinha, ir gastar dinheiro à toa? Só para dizer "Ah, eu sou muito independente, eu deixei a casa dos meus pais". Não. Se fossem uns pais controladores, até poderia ser uma bela desculpa. Mas não era o caso, de todo. A cidade permitiu tudo: viver, estudar, trabalhar. Não tinha motivos. E ainda bem que permaneci até tarde com eles. Uns anos depois, a dificuldade em passar tempo com os meus pais tornou-se desconfortável, desagradável, para dizer pouco. Ainda bem que aproveitei enquanto pude. Estou certa de que poderei novamente, mas ainda assim. Não vou, contudo, negar que foi bom quando tive de ir trabalhar para outra cidade e saí de casa dos meus pais. A cidade onde estávamos deixou de me permitir trabalhar. Fui para a cidade onde estava o grande amor da minha vida, na esperança de que isso nos juntasse. E juntou. Hoje já conseguiria, novamente, trabalhar perto dos meus pais. Mas suponho que não seja suposto, já que o meu marido não me poderia acompanhar. Também suponho que não seja suposto voltar por outros motivos. A vida às vezes quer mais coisas para nós, do que nós para ela e quando é assim, não há muito a fazer, até porque nem se sabe muito bem ao certo o que se deve fazer, o que seria melhor para todos. A minha sempre me fez sentir vontade de estar onde não estou. Entretanto, actualmente, não consigo sequer perceber se tenho essa vontade ou não. Essa, de estar onde não estou. Não me sinto mal onde estou agora. Para dizer a verdade, até me sinto bastante bem. Quando para cá vim, foi uma euforia pegada. Mas senti tanto a falta dos meus pais, senti tanto a falta de companhia. E eu que pensava que até era uma apreciadora da solidão. Eu não conhecia era a verdadeira solidão. E continuo a não conhecer. Mas os primeiros tempos, foram complicados. Nem sempre consegui que as coisas corressem bem com o meu actual marido. Fiquei num quartinho pequenino, frente ao meu local de trabalho. Devido, também, a outros factores de novidade que nessa altura sucederam na minha vida, tudo aquilo parecia-me demais. A minha memória nunca mais voltou a ser o que era, desde então. Era simplesmente demasiada coisa em que pensar. Comecei a ter falhas, cheguei a ter falhas mais ou menos graves de memória. Não havia nada de tudo aquilo que eu pudesse fazer automaticamente, pois era tudo novidade. Mudei de casa, mudei de carro, mudei de cidade, mudei de vida, mudei de rotina, mudei de tudo. Ia ficando maluca. Mas sentia-me orgulhosa porque, apesar das dificuldades, estava a conseguir. E no ano seguinte a tão desejada adaptação aconteceu. Tudo foi mais leve, mais fluído. Encontrei os meus escapes. E a cidade permitia-mo, pois tinha imensas possibilidades, tantas que ainda hoje estão longe de estar todas exploradas. E era, e é relativamente perto da cidade dos meus pais, o que me permitiu, apesar de tudo, uma mudança gradual. O tempo em que mais usufruí da cidade dos meus pais, foi mesmo o tempo em que não vivia lá, antes de me casar. Muitas vezes sinto vontade de voltar a casa dos meus pais. Há tanta gente que não está bem em lado nenhum e eu estou tão bem em tantos sítios ao mesmo tempo, o que acaba a ser cruel também. 

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