Costumávamos ter uma no quintal. Tinha os buracos grandes, facilmente uma pessoa enfiava coisas por ali. Ficávamos com o corpo marcado se lá estivéssemos muito tempo. Mais que deitar-me nela, o que era uma verdadeira aventura, sentava-me, de lado. Não propriamente a ler, mas por curtos períodos de tempo, simplesmente a observar e a contemplar, coisa que não podia fazer muito prolongadamente, pois o meu espírito inquieto não me permitia estar sem fazer nada durante períodos muito longos. Já deitar, era desafiar a gravidade e as leis da Física. Mas foi bom vencer o desafio de conseguir deitar-me numa coisa que balança por todos os lados. Era, efectivamente, um desafio conseguir permanecer mais ou menos quieto ali. Acredito que haja outras redes de cordas mais suaves, ou até sem buracos. Aquela conseguia magoar o corpo. Afinal, a aventura da rede fora uma mera experiência num quintal em que quase metade do ano não se pode estar por ser demasiado quente, enquanto na outra metade também não se pode estar por ser demasiado frio. Um quintal, onde gostaríamos de ter colocado tantas outras coisas, mas em que o clima dado a picos de temperatura não permitia grandes aventuras. Não permitia grande permanência. Era pena. Se tivesse um quintal assim na cidade em que vivo agora, certamente poderíamos desfrutar muito mais. Agora há umas varandas grandes, mas ainda assim, demasiado pequenas para as tais grandes aventuras. Era bom estar na rede, mesmo a rede sendo desconfortável. Eu diria mesmo, um bocado agressiva. Mas aquele quintal não justificava grandes investimentos do género, já que só lá conseguíamos parar durante alguns dias por ano. Entretanto, ainda li partes de livros deitada na desconfortável rede. Enquanto o sol não dava lá directamente ou, estando ela à sombra, não se tornava demasiado frio Foi, inclusivamente, na rede, que eu estava talvez da única vez que uma abelha, ou vespa me picou. Senti algo entre os dedos, ainda me lembro, da mão direita. Não me passaria ela cabeça que tal seria possível, pelo que o primeiro impulso foi fechar a mão, juntar os dedos, apertar o bicho, precisamente aquilo que não deveria ser feito. O resultado, foi a punição que já seria de esperar. Aquela dor que todos dizem ser horrível, mas que eu nem achei assim tanto, apesar de tudo. Ou a bichana não foi assim tão má para mim. Em conclusão, nesse dia não houve mais leitura, provavelmente nem na rede nem em mais lado nenhum. Lembro-me da minha mãe me dar uma faca e dizer que era bom pôr a lâmina em contacto com a picada. Dizem. É capaz, mas a mim doía-me na mesma. Não me lembro de muito mais do que isso, mas calculo que voltar a pegar no livro pudesse ser, no mínimo, desconfortável. E, com a dor, a concentração para a leitura seria capaz de não ser a melhor. Acho que aquela rede não gostava mesmo que a usassem, Talvez tenha combinado algo com os insectos. É possível que ainda para lá ande. Eu já tinha acabado o meu curso e ainda me lembro dela montada e de lá estar a ler o Código da Vinci, mesmo no auge das polémicas que causou inicialmente. O chão do quintal é irregular. As pedras do chão não são lages, são restos de mármores de diversos tamanhos e feitios, colocados aleatoriamente, com cimento pelo meio. E o terreno desce ou sobe, consoante a zona do quintal em que nos encontremos. A juntar à inquietação da própria rede, vinha a inquietação provocada pelo equilíbrio instável em que se encontrava, sobretudo se a quiséssemos à sombra das árvores. Mas tenho algumas saudades. Se bem que não sou muito de saudades; sou mais de sentir que gostava de ter um quintal aqui, onde estou agora e onde pudesse pôr uma rede, de malhas menos largas e cordas mais macias, num chão que pudesse ser a direito.

