"Só sei que escolheram para ir a Coimbra exactamente no ano em que eu lá estava. Devo, portanto, felicitar o grupo pela excelente escolha. Sei também que, nos dias imediatamente antes, a cidade ficou absolutamente caótica. Estava eu, descansadinha, às compras no Jumbo do Dolce Vita, muito atarefada porque esperava visitas, em parte, mas de forma muito particular por estar ainda em processo de instalação de mim mesma, quando tento sair do Centro Comercial e não sou capaz. Não sei quantas horas levei a fazer um percurso que, normalmente, é feito em cerca de 4 minutos, pouco mais quando há trânsito. O espaço ao redor do Estádio Cidade de Coimbra estava absolutamente submerso em camiões gigantescos, negros e amarelos. Tive de ir dar uma volta enorme porque não pude seguir o meu caminho normal. Quando cheguei a casa, estavam as visitas prestes a chegar, e a comissão instaladora que estava a auxiliar-me com o processo de instalação, prestes a sair. Pequenos pormenores que avivam a memória de dias magníficos! Queria muitos mais como estes.
Gosto de ter visitas. No sábado, eu e as visitas só nos despachámos para sair de casa quase a meio da tarde. Fomos ao Dolce tentar comer alguma coisa, mas foi deveras complicado, afinal de contas, esse dia já era dia de Concerto dos U2, e estava tudo cheio de gente. Ainda por cima, o tempo não estava a facilitar muito e chovia lá fora. Fomos passear pelas lojas, encontrámos gente conhecida (pouca, afinal de contas, quem é que tinha conseguido bilhete para o dia 2??), deambulámos por ali horas a fio. Eu já andava armada em pessoa poupada; acho que resisti àquele banho de lojas sem comprar absolutamente nada. Ainda tentámos andar um pouco pela cidade, mas em vão. Fora aconselhado a quem não tivesse mesmo de ficar para o fim de semana, a fugir dali para fora. Sei de quem o fez, e fez muito bem, porque muitas áreas da cidade estavam absolutamente intransitáveis. Havia polícia por todo o lado a fechar muitas vias. A loucura total. Ainda cheguei a pensar: mas quem é que estes gajos pensam que são para manipular assim a vida de uma cidade inteira? Mas imediatamente calei este pensamento, por motivos óbvios.
Ainda conseguimos ir até à Praça da República, mas pouco mais. Desistimos da cidade, agarrámos na viatura e dirigimo-nos novamente ao Dolce. Jantar agora bem mais calmo, cá fora na esplanada, ao som do concerto dos U2 que a essa hora já decorria a todo o vapor. "Aaaiii, os meus U2!! Quem me dera já lá estar" - gritava alguém de nós, em desespero. Que tortura! Já eu, achava que ainda bem que fiquei para último; se não tinha de aguentar a ideia de o meu concerto já ter passado e haver gente que continuava a divertir-se. Seria certamente, muito difícil. Preferi assim, mas houve quem quase morresse de ansiedade. A seguir ao jantar ao som dos U2 - e é que não se ouvia mesmo nada mal - fomos ver um filme em que já andávamos de olho há muito - O Aprendiz de Feiticeiro, com o Nicholas Cage.
E lá fomos. Estava a malta toda contente a ver o filme - bem giro por sinal - mais uma vez, também, ao som dos U2, quando chega o tempo do intervalo. Entretanto, uma marmanja grávida do Norte levanta-se, corre até à porta da saída de emergência e abre-a. Qual não é o nosso espanto quanto conseguimos, a partir dali, uma vista privilegiada para o Estádio onde actuavam os U2!! Houve gente a ficar histérica, outros a congratular a grávida que gritava "Eu sabia, eu sabia, eu tinha cá um feeling, eu tinha de experimentar, era mais forte que eu! Estive no Estádio no dia seguinte, mas jamais esquecerei a vista que tive dali: estava apenas a alguns metros da parte superior da estrutura (o aranho, como lhe chamou um amigo meu), onde estavam colocados os écrans gigantes que nos permitiam ver melhor o que se passava em cima do palco. A vista para o estádio era simplesmente espectacular: via-se tudo a partir de uma das pontas; o estádio a abarrotar de gente, uma multidão de flashes de máquinas fazia parecer que o negro da noite brilhava de brilho próprio. A audiência estava completamente ao rubro, absolutamente rendida. Fiquei extasiada com uma das visões mais belas que tive em toda a minha vida e questiono-me se os bilhetes atrás do palco, aqueles de 30 euros, mais baratuxos, que ninguém quer, seriam assim tão pouco bons. Mas enfim, não tive tempo de ponderar esses prós e esses contras, pois rapidamente veio a segurança toda a correr para nos expulsar; uma senhora segurança armada de cara feia; claro, a ela não fazia diferença, afinal de contas estava ali a assistir a tudo!
Houve gente que já nem viu o filme como deve ser, da excitação! Houve gente que me deu cabo do juízo o tempo todo até casa. Quando estávamos a sair do filme, estava o pessoal a começar a sair do concerto e nós apressámo-nos para não levar com a barafunda em cima. Apressámos-nos, enfim, eu tentei apressar-me, mas houve que não estugasse o passo assim tanto.
O domingo foi inteiramente dedicado aos U2. Já não me lembro bem, mas acho que comemos uma porcaria qualquer em casa para não estarmos a perder tempo a tentar almoçar num shopping completamente inundado de gente. Depois, a malta toda a aprontar-se muuuito bem, não fosse alguém ter visão especial lá do palco e ver o pessoal descomposto! Mas mesmo assim, houve metade da toilette que não consegui fazer, porque havia gente a stressar completamente, aos gritos "Despacha-te, os meus U2!!"; nem tive tempo de pôr o telemóvel a carregar caramba! Tinha lá os meus amigos todos naquele Estádio e mal lhes pude enviar sms, porque não tinha bateria no telemóvel!
A entrada foi muito fácil: quem sabe, sabe. Levámos apenas 10 minutos a pé até ao Estádio; depois dividiram-nos por filas, consoante fosse a porta por onde deveríamos entrar. Esperámos meia-hora, de rabo assente no chão, até que as portas abrissem e a entrada começasse a fazer-se. O stress foi sim para o resto do pessoal que vinha de autocarro, pois tiveram dificuldade em chegar a tempo - os autocarros que se falou que se haviam de organizar partindo de alguns locais do país e que sempre se organizaram. Os U2 são, definitivamente, milagreiros. Havia quem já desesperasse, quem já achasse que o autocarro não ia chegar a tempo, porque entrou por norte (para ali seria sempre melhor a entrada sul), como fazem, aliás, todos os autocarros, mas esses não costumam ir para o Estádio e sim para a Rodoviária. Depois do stress, já estávamos nós dentro do estádio, entrada fácil fácil, sem barafunda, houve quem começasse a achar piada aos seguranças que, felizmente, nos fizeram passar por maravilhosos, práticos e rápidos detectores de metais, nada de outros procedimentos deprimentes. Foi rápido e fácil encontrar a porta, foi rápido e fácil subir a escadas e encontrar nova porta que desse para a espectacularidade do estádio. Estava preocupada, porque o resto dos meus amigos estava tudo no relvado, e estava mesmo com muita vontade de chover... só nós, nós, VIPS, nas bancadas!! E não das bancadas descobertas: nós estávamos mesmo debaixo das bancadas cobertas... haja sorte! Ainda choveu um bom bocado, mas felizmente, algum tempo depois do concerto começar, a chuva parou.
Tadinhos dos Interpol! Por um lado é interessante ir abrir o concerto dos U2, mas por outro é desgastante! O público não vibra da mesma forma, afinal estão ali para ver os U2. Mas deram um show fabuloso, eu gostei imenso! O vocalista é que se foi embora dizendo: "Vá... fiquem lá com os vossos U2!!"... Esses gajos, directa ou indirectamente, são um bocado sanguessugas (isto estou eu a dizer...); opá, coitados, mas não têm culpa de serem tão amados!!
Estávamos exultantes e saltitantes nos nossos lugares, comíamos e conversávamos quais matracas descontroladas. Nada de lixarada, hein? Tudo para dentro de um saquinho que a menina do costume havia trazido para o efeito! Deu tempo ainda para trocarmos muitas impressões e sms com o resto do pessoal que por ali estava espalhado. Decorreu ainda bastante tempo desde o momento em que entrámos até ao momento em que eles começavam a actuar. Incrível como uma pessoa consegue ficar com algumas dores de barriga só da excitação! Claro que os U2 tinham já o seu kit anti-chuva; uns cogumelos fantásticos, transparentes e tal, tudo muito giro, muito giro, como sempre. Tivémos também direito a relógio onde eram assinalados os segundos que passavam, qual passagem de ano. Quando eles finalmente entraram, foi fumarada para todos os lados, e gente aos guinchos também. A loucura total, mesmo. Entraram logo a chamar Briosa à nossa maravilhosa cidade; esta malta sabe-a todinha (e porque não?).
E a partir daí foi sempre a abrir. Fiquei rouca de tanto cantar, fiquei exausta de tanto dançar. Uma pessoa esquece-se que o resto do mundo existe. Naquele momento só existimos nós e a música, mais nada. É simplesmente transcendental. E, tal como alguém dizia na TV, aquando a última vinda dos U2 a Portugal, antes desta, alguém que aguardava por vez na fila para comprar os bilhetes: "não dá para explicar; acho que é algo espiritual". Está tudo dito. Eu também gostava de saber o que é que eles têm que os outros não, tenho dificuldade em explicar; talvez a facilidade em criar proximidade que o Bono tem, e música mesmo muito boa; e isso vale só por si. Uma enorme capacidade de desenhar melodias que se entranham, que ficam connosco, arrastando as próprias letras. A música deles flui com uma facilidade incrível; as letras memorizam-se sem darmos conta. Ouvimos uma vez e outra e outra e apetece sempre ouvir.
No fim, como sempre, a javardice do costume... mas nós, não! Estávamos exaustos, mas levámos o saquinho de plástico tranquilamente para casa!!"
No fim, como sempre, a javardice do costume... mas nós, não! Estávamos exaustos, mas levámos o saquinho de plástico tranquilamente para casa!!"
(17 de Julho de 2011)
Para saber ao certo como foi o concerto: aqui.


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