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domingo, 17 de setembro de 2017

Antígona Versus U2 - Parte I


"Eu estava na net (a probabilidade de isso suceder seria sempre alta). Estava a conversar com uma amiga. Estava a comentar que tinha bilhetes para essa noite, para uma peça de teatro que era um clássico e eu, por norma, gosto de clássicos; sobretudo, tenho curiosidade... talvez por retratarem uma época, formas de pensar distintas, enfim... estava com a noite delineada... já não havia mais novidades... e pronto.

Até que vêem de lá as letras dela e me dizem... que um amigo ia dormir para a porta da Worten do Forum... porque estavam lá a vender bilhetes... para os U2. Eu ainda pensei que fosse engano... então eu tinha estado na semana anterior, feita louca, a apanhar sol nas filas em Coimbra (acho que piorei da constipação por causa disso...) e agora, apenas uma semana depois, era simplesmente assim?? À porta da Worten?? Claro que eu ia tentar novamente... mas estava a fazer figas para o ticketline não voltar a empacar... afinal de contas, desta vez já seria menos gente a tentar aceder... (seria mesmo??) Provavelmente não. Tanto não seria, que no próprio site avisava que não se responsabilizavam por eventuais desilusões... e que esperavam muitos acessos... e eu com os bilhetes do teatro na mão... não ia deixar de ir... fui. Até fui às nossas docas secas, até bebi um Irish Cofee (há quanto tempo, já nem me lembrava do quanto gosto daquilo!!)... e até liguei ao tal amigo que, ao contrário do que ainda pensei, me confirmou: sim, aqui mesmo, na cidadezeca - haviam uns miseráveis 500 bilhetes, mas who cares!! Acho bem que os tenham distribuído um pouco por todo o país - Ainda há bilhetes para quem chegar agora, dizia-me ele... mas eu não posso chegar agora, pensava eu... liga-me a mamy... o ticketline diz que prevê muitos acessos... tou lixada - penso eu, outra vez. Quero lá saber, vou ao teatro e depois vou para lá dormir... então eu vou lá guardar-te vez, se não perdes novamente a oportunidade de comprares bilhetes - a mamy... e eu desfiz-me em agradecimentos, prometi logo limpar umas 500 máquinas a abarrotar de louça!! Nem sei bem como, lá vi a Antígona... coitadita da rapariga, a vida corria-lhe mesmo mal, bem pior do que aos que decidiram passar a noite em claro a responder a chamadas de tantas em tantas horas (não me estou a queixar, a sério!!); estou em crer que no final morreu mesmo toda a gente (na peça de teatro, bem entendido), já não me lembro se o extraordinariamente rígido Creonte - quiçá, o mau da fita - morre ou vive... mas se viveu deve ter sido só mesmo ele... foi extermínio total... fosse o nosso modesto Teatro das Beiras menos modesto (em termos monetários, que em termos de talento, não existe qualquer modéstia por aquelas bandas!!) e aquilo teria sido um autêntico épico sangrento, qual Alexandre o Grande (belhac)... de Creonte não me lembro, curiosamente; lembro-me melhor das cenas espreitadas por entre as sms que ia recebendo ao longo da noite: "são 500 bilhetes, se cada pessoa levar 4, dá para 125 pessoas... tu és o 127, mas já desistiram bastantes, pelo que dá mesmo para ti"; "ouvi dizer que iam vender bilhetes para os U2 aqui na Worten... será mesmo verdade??" - e coisas que tais... e eu a responder e a espreitar a maluca da Antígona a choramingar no palco que nunca mais ia ver a luz do dia, porque resolveu enterrar o corpo do irmão, que morrera lutando contra a causa de Creonte, e que, por isso mesmo, este proibira de enterrar... sob pena de morte... a Antígona tinha uns senhores tomates, hã? Foi desta para melhor, mas pelo menos foi direitinha!! Disse para ali umas coisas jeitosas ao Creonte...  toma lá que já jantaste... mas o outro que não, que não, que não e não sossegou enquanto não viu toda a gente morta, e nem foi de morte morrida, foi mesmo de morte matada... diz que se inebriou por estar a vencer uma guerra que todos julgavam perdida... excesso de confiança... e de estupidez também, pois que mal têm umas pázitas de terra em cima do outro desgraçado? Depois vem o que eu chamo de efeito dominó: nestas peças, quando começa um a morrer, aquilo vai por ali fora, nunca mais acaba... enterraram a Antígona viva, estado no qual não deve ter perdurado muito mais tempo; sabendo da desgraça, Hêmon, noivo de Antígona e filho de Creonte, vai e enterra uma bela de uma espada, grande e afiada, no seu próprio bucho... e vai a mãe do Hêmon, mulher do Creonte, e enforca-se, por saber que o filho havia morrido... bem, de uma coisa não os podemos acusar: excesso de originalidade, pois se existe alguma é em inventar formas diversas de morrer e pouco mais. Gostava de saber que raio de piada era esta que em tempos idos se achava a matar tudo quanto era alminha que participasse de histórias ou contos, ou coisa que se lhe assemelhasse... se bem que os entendo; sempre era uma fuga à rotina (ou talvez não) e escusavam de estar a ter trabalho em pensar o que fazer às personagens... mas ná, ná, meus amigos, então, isso é batota!! Onde já se viu?? E o resto, pessoal?? Não contam o resto?? Hummm... gosto de clássicos, mas devo considerar que a estes senhores faltava... visão... sim, essencialmente isso, visão; não conseguiam ver para lá daquilo mesmo... e comparando os sacrificados de Antígona com os sacrificados dos U2, bem se vê... é que uns não escaparam, enquanto que os outros não só escaparam, como os que se sacrificaram, TODOS conseguiram bilhete!!"

(2 de Novembro de 2009)