sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Own a typewriter


Eu costumava ir para o trabalho do meu pai, quando acabava as aulas. Estava eu no sexto ano. Ia escrever coisas na máquina de escrever que ele tinha no escritório para ficar entretida até que se fizessem horas de ele sair do trabalho e de irmos para casa. A sensação de ter algo em que é suposto escrever-se era mais ou menos a mesma de hoje, talvez menos. Uma quase euforia, a euforia da escolha: "e agora o que é que eu vou escrever?". Como se um mundo de possibilidades se estivesse a abrir à minha frente. Comecei por escrever pequenas coisas acerca da maneira como me sentia, do que tinha feito na escola, das amigas que por lá tinha. Uns tempos mais tarde, acabei a escrever um jornal com notícias sobre os brinquedos do meu quarto e as coisas que por lá aconteceriam enquanto eu estava na escola.Entretanto, a minha mãe também começou a trabalhar num escritório, mas a máquina de escrever que ela lá tinha era "electrónica" e muito moderna, cheia de funcionalidades interessantes. Já era maiorzita e por lá escrevi muita coisa, já coisas mais elaboradas, como reflexões que, supostamente, deveriam ser adicionadas ao diário ou, pelo menos, que serviam de base para posterior escrita. Com estas e outras acabei verdadeiramente viciada, e bem me parece que não me vá curar na vida toda. Ter algo com que escrever e poder fazê-lo à vontade é uma euforia que me tranquiliza. Ainda hoje é assim e parece que isso até tem sido crescente ao longo da minha vida. Escrever acalma-me. É das formas mais eficazes de conseguir tranquilizar-me que conheço. Mais do que respirações ou qualquer outra estratégia do género. 

Algures no meio disto tudo, os meus pais acabaram a comprar-me uma máquina de escrever para casa. Ainda por lá deve andar, quero muito dá-la a conhecer aos meus filhos. É uma verdadeira relíquia! Não era electrónica, era até bastante rudimentar, mas era tão fabulosa. E eu sugava as prendas que me davam até ao tutano. Explorava-lhes todas as possibilidades. Eu achava sempre brincadeiras e usos para as coisas, por mais desinteressantes que elas fossem. Mas a minha mãe sabia sempre qual a coisa certa para me oferecer. Apesar de ter muitos brinquedos, não era miúda de deixar as coisas de parte, sem uso. Arranjava sempre brincadeiras em que andava tudo ao barulho. 

O projecto do jornal era um grande empreendimento, creio que ainda consegui publicar o seu primeiro número! Acho que se chamava o "Jornal do Fim da Macacada", ou o "Jornal do País dos Brinquedos", ou algo do género. Mas nunca mais me atrevi a fazer muito mais, pois aquilo requeria uma trabalheira imensa e eu tinha tanto mais que explorar lá por casa. Tinha bonecas de papel a quem tinha de fazer vestidos, tinha de fazer enfeites para a árvore de Natal dos meus bonecos que estavam na garagem, tinha de fazer fichas para a escola dos meus bonecos, eu sei lá. Como é que eu havia de querer crescer, com tanto que havia para fazer no mundo da infância? Era suposto, como adolescente, deixar tudo isto para trás? ... A vida pode ser mesmo parva pelas coisas que nos exige! Ou talvez sejam apenas as pessoas!


domingo, 1 de outubro de 2017

Find True Friends



Uma lição triste que tive de aprender logo em tenra idade, é que muitos seres humanos não são aconselháveis, nem recomendáveis. Deixem-me contar-vos como foi que o processo de triagem evoluiu. Quando era bem pequenita, ia para a rua brincar com a miúdagem da vizinhança. Com frequência, as mães ficavam em casa, a maioria das vezes, nas lides domésticas, e deixavam os filhos ir brincar para a rua, mantendo-se de olho aberto. Bastava chegar à janela e espreitar de vez em quando. Era normal as crianças brincarem na rua. Eu adorava brincar na rua, à solta, chegar a casa toda porca e ensopada das correrias. E com frequência levava para casa, para brincar comigo, miúdas que encontrava aqui ou ali. Não me dava muito com rapazes porque achava que eles eram brutos e estúpidos e tinha a absoluta noção de que teria de esperar uns bons anos até conseguir chegar perto de algum. Nunca gostei de apanhar porrada, muito menos de dar. Não queria cá confusões para o meu lado. Comigo, ou era na base da paz, ou eu não estava para aturar cenas (ainda hoje é parecido, estando em causa outro tipo de porrada). O requisito principal era chegar à campaínha de casa, esse era o garante da nossa liberdade. Durante uns anos, tudo correu muito bem. Eu fazia parte de um bando de algumas dezenas. Era tão simples nessa altura; bastava perguntar "olha, queres ser minha amiga?". Normalmente, do outro lado, a resposta era sempre afirmativa. Eu era mesmo sociável. Acho que fizeram-no comigo algumas vezes, depois comecei eu a fazer e nunca mais parei, até andar próxima da adolescência: "queres ser minha amiga?".

Quando chegou a mal fadada era da adolescência, toda a gente começou a mudar e eu sem perceber o porquê. Acho que a minha evolução foi diferente, mais gradual. Olhava ao meu redor e não conseguia identificar-me com as pessoas, com o que faziam, com o que sentiam. Eu não estava assim, nem queria estar. Para mim, muitas coisas continuavam exactamente na mesma, e as que estavam a mudar, certamente não queria que fossem como eu via nas pessoas que estavam ao meu redor. Não gostava da forma como via as pessoas repudiar os seus pais e as coisas da infância, a necessidade doentia de se afirmar a toda a força, de fazer isto ou aquilo para ser assim ou assado, para encaixar no estereótipo do fixe e depois no fim, acabarem todos vestidos de igual, todos a fazer o mesmo. Continuo a achar que isso não é ser adolescente, isso é ser estúpido. E ser adolescente, não tem de ser sinónimo de estupidez e agressividade. Acho que isso é mais um reflexo da falta de educação do que outra coisa. Tinha de escolher as almas mais plácidas para me relacionar, o que nem sempre era um bom critério, mas das outras nem me conseguia aproximar. Por vezes apercebia-me que existiam pessoas relativamente dignas de interesse no outro lado, mas eram demasiado cobardes para se assumirem como diferentes da maralha. Aproximar-se de mim tinha esse significado: não andar com a maralha. Eu recusava-me a andar em bando, sobretudo um bando com o qual não me identificava. Fazer amigos, nesta fase, não foi fácil. Mas mesmo assim, tive momentos de maior sorte com as pessoas que me rodeavam em que consegui mesmo fazer amigos. Mas não sei o que sucedia, no tempo em que não havia facebook e que as pessoas normais não tinham net, essas pessoas acabavam sempre a sumir-se do meu horizonte. Ou então eu tinha de fazer um esforço louco para manter contacto e as coisas acabavam a perder o sentido.

Até que, depois de uma era de relativa solidão - considerei-o assim, já que gosto de estar rodeada de amigos, os quatro ou cinco que tinha não me chegavam, até porque não considerava as nossas amizades compensadoras - tudo mudou. De repente, vi-me rodeada de pessoas que gostavam de mim tal como eu era, que me aceitavam (a estupidez da adolescência acaba por passar a algumas pessoas, às melhores), ao mesmo tempo que eram pessoas de quem eu gostava. Algumas amizades aprofundaram-se mesmo e rapidamente dei por mim com uma rede de amigos que me ajudam e apoiam quando preciso.

Cresci a acreditar que era diferente e esquisita, em boa parte porque não tive muita sorte com as pessoas que se cruzaram comigo. Também acredito que alguns conceitos erróneos que fui formulando acerca da amizade me tenham afectado. Tive uma amiga que era mentirosa compulsiva, logo pequenina, na infância, no meio daquela malta toda com quem eu andava. Não era minha amiga, não era amiga de ninguém, nem o deverá ser ainda hoje. Mas eu era amiga dela. Acabei por interiorizar que amizade era dar e receber pouco em volta. Até que desisti de dar grande coisa. Mas nunca deixei de sonhar com amizade verdadeira e isso, um dia, veio para mim.

Entretanto, sei que poderia ir mais além. Ainda há coisas que faltam. E ainda bem. A nova fase, em termos de amizades, vai ser mais lenta, mas menos sobressaltada. Espero renovar as amizades antigas e conseguir criar novas tendo por base menos sintonia inicial do que as que agora considero tão preciosas. Os critérios que vão presidir ao avanço ou não de uma amizade não serão os que foram até aqui. É o início de uma fase trabalhosa, mas que me vai levar mais longe e fazer avançar. E isso é tudo o que uma pessoa mais pode desejar.


Have a Best Friend Who Will Never Let Me Down



A minha melhor amiga é uma espécie de mãe para mim. É mesmo uma pessoa a quem eu sinto que posso contar tudo. Também sinto que o posso fazer à minha mãe efectiva, obviamente, mas é uma mãe diferente, esta, sem deixar de ser como uma mãe. Alegra-se quase mais do que eu pelas coisas boas que me acontecem e faz tudo para estar ao meu lado quando preciso dela. Espero que a minha vida me dê oportunidade de continuar a alimentar a nossa amizade, pois não a quero perder por nada. Sei que deseja o melhor para mim e que é do fundo do coração que o diz. Eu desejo o mesmo para ela e angustia-me saber que algo não está bem na sua vida. O seu maior defeito é não saber dizer que não às pessoas. Dá tudo de si até se esgotar e depois sente-se culpada por não conseguir dar mais. Acho que ela está a aprender a dosear isso. Mas sei que lhe é muito difícil dizer que não aos que ela gosta realmente. Mas é selectiva; muito. Não é qualquer pessoa que tem a atitude que ela considera digna dela e tem critérios apertados. Mesmo assim, tem um nunca mais acabar de amigos. Tem uma boa antena para captar boas pessoas, mas no crivo apertado dela às vezes também passam más pessoas, que ela insiste em ver coisas boas e o melhor que têm a dar. Más pessoas, salvo seja, que essas coisas são sempre relativas. Mas é poderosa. As pessoas querem ser amigas dela. Ela consegue dispensar prestígio, honra e dignidade a quem se chega a ela. Eu sei que é assim que as pessoas se sentem, eu vejo e percebo isso. É uma pessoa muito especial, eu acho. Não é perfeita, como ninguém é, mas para mim é uma amiga preciosa que espero vir a conseguir ajudar um pouco mais nos próximos tempos. Acho que já nos demos muito uma à outra, mas espero que esteja para breve eu conseguir ajudá-la como tentei em certa altura e não consegui, pelo menos não como gostaria. 


terça-feira, 19 de setembro de 2017

Try Yoga


Não foi apenas tentar. Qualquer pessoa sensata, com a dificuldade que eu tenho, teria desistido muito antes. Não é fácil para mim. O meu corpo não é dos mais flexíveis. Mas também não é dos menos. Entretanto, sou demasiado susceptível à pressão feita pelos professores. No início, tive um grupo que dissuadia amavelmente e com graça os excessos da professora, até porque era um grupo de pessoas já com uma certa idade. Pessoas com sabedoria, sem paciência para correrias ou competições. A nossa professora era excelente, era exigente, mas nunca esquecia alguém que estava com dificuldades ou adoentada. Era um grupo muito especial, nunca mais voltei a encontrar outro assim. Encarnavam bastante o espírito do ioga, da não competição, da não violência. Havia momentos em que não tinha vontade de continuar, mas acabava sempre a ir. O facto de ter o corpo constantemente dorido foi sempre um forte dissuasor. No entanto, até me ir embora da cidade, continuei sempre, mesmo que tivesse momentos menos assíduos. Tentei pelo menos três outros professores, com os respectivos grupos e em nenhum consegui continuar. Acabava sempre a sentir-me dissuadida e sem vontade. Eu nunca soube adaptar aquilo que os professores mandavam fazer a mim própria e ao meu corpo, e depois andava sempre cheia de dores. No entanto, no primeiro grupo mantive-me durante 7 anos, talvez oito. Depois, por aí, em diversos sítios, tentei e não gostei. Então em ginásios que ignoram por completo a filosofia, nem pensar, é fugir a sete pés. Entretanto, encontrei algumas escolas que fazem o tipo de yoga que eu gosto, mas em algumas andava-se muito perto da lógica competitiva do ginásio. Até aí me senti incompreendida. Foi então que decidi fazer sozinha, em casa. Já consegui fazer por períodos de algumas semanas, e continuo a tentar encontrar a disciplina necessária para isso, pois creio ser aí que está uma solução de longo-prazo para mim, uma vez que não posso retornar ao grupo inicial. Fazer nos ginásios é mau, mas é mais barato. Fazer nas escolas que eu gosto, normalmente é mesmo muito caro, mas mesmo assim, tenciono voltar lá, nem que seja para me actualizar. 

Tudo começou quando eu percebi que tinha de encontrar uma forma de me acalmar, sem recorrer a medicamentos. No sítio onde estava a viver, procurei por todo o lado e não encontrei. No ano seguinte à busca, mudei de cidade e soube que havia lá um grupo. Foi uma coisa colossal. Significou uma mudança profunda na minha vida. Nunca mais voltei a ser a mesma, isso é certo. E também estou certa que, voltando a fazer ioga, mesmo que à minha maneira, o mesmo voltará a suceder. Passei a andar mais calma, mais confiante, mais focada, mais concentrada, menos tendência para deprimir ou ter problemas menstruais, melhor postura, emagreci, emagreci, emagreci. Controlei o apetite que foi um mimo. Foi uma autêntica revolução na minha vida.

Entretanto, contudo, uma coisa ficou: a meditação. É parte do ioga, é a parte em que a mente é estimulada a concentrar-se. Entretanto a meditação que se faz nas aulas de ioga não é, para mim, a mais eficaz. Eu preciso focar-me em algo, mas não pode ser uma vela. Tem de ser algo positivo, não pode ser algo neutro. A minha fraca atenção precisa de um estímulo mais forte. Entretanto, para mim é também importante escrever, como forma de me ajudar a focar. Conhecendo o que é meditar, procuro focar-me em afirmações positivas, imagens positivas: visualizar as minhas metas atingidas, visualizar coisas boas a acontecerem. Por vezes, descrever essas coisas boas. Isso transporta-me para um nível de relaxamento profundo e ajuda-me muito, mas sinto falta dos benefícios físicos que uma prática mais completa pode trazer.

Desde que parei de fazer ioga, contudo, ou fiz em grupos em que não me sentia tão bem, que nunca mais voltei a sentir tantos benefícios. Em alguns, nem mesmo pequenos benefícios. Não culpo os professores nem os grupos, sei que sou eu que estou a "captar cenas"; ou seja, em linguagem esotérica, energias. E se eu não me sentir bem com a energia do grupo, nada feito. Para já não falar com a energia do professor. É assim com tudo. O grupo aqui de casa, que sou eu, a gata, as mobílias, a carpete e o meu tapete, funcionamos lindamente. Ainda estamos a aprender coisas acerca de disciplina e assiduidade, mas acho que estamos no bom caminho!


segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Start a Diary and Write in it Every Day


Ok, nem todos os dias. Mas tive dias em que escrevi tanto que valeram por semanas inteiras. Meses inteiros. Eu devia ter uns 10 anos quando a minha mãe me deu o meu primeiro diário. Ela deu-mo como uma pequena recompensa por eu estar a ter um desempenho muito bom na escola. Mas não mo deve ter dito, ou então não o frisou, porque ela queria ser coerente com uma das máximas dos meus pais ao educarem-me: a escola só me traria benefícios, assim como o trabalho que eu ali desenvolvesse. Seria um trabalho que eu faria para mim, não faria sentido presentear ainda mais uma coisa que já por si é um presente. E, aqui entre nós, eles não pensariam em tal "presenteamento", em boa parte, porque eu tinha rasgos de perfeccionismo em tudo o que fazia. Não era preciso estimular isso ainda mais. Também ninguém me dizia que eu tinha de trabalhar ou me mandava estudar. Eu era do mais trabalhador e do mais autónomo que podia haver. Mas nessa altura, eu ainda era equilibrada. Mais tarde é que "viajei na maionaise". Mas mesmo assim, consegui ter o bom senso para pôr um travão na altura certa. Venha de lá o diário.

Foi uma paixão que começou nesse dia e nunca mais acabou. Aliás, nem a minha mãe sabia o que por ali vinha, e que eu viria a ser uma viciada na escrita sem emenda. A escrever longos testamentos por tudo e por nada. A ser das poucas pessoas do mundo que ainda troca correspondência via CTT; papeis com coisas escritas; postais ou mesmo só folhas (adoro texto corrido, sem bonecada, pelo que prefiro a versão não postal). Mesmo quando me correspondo com as pessoas por e-mail, é parecido. Claro que tudo isso já foi muito pior; hoje não tenho tempo para caprichos, embora continue a lutar por encontrar tempo; escrever muito é o meu capricho favorito. 

O meu diário tem uns 22 volumes efectivos, com mais apêndices (pequenos blocos que vou enchendo quando ando por aqui e por ali e não tenho o diário propriamente dito à mão). Isto para já não falar em tudo o resto. Capas e dossiers sobre isto ou sobre aquilo, mais um caderninho disto e uma agenda de aqueloutro. Quando era miúda descrevia cada detalhe, cada pormenor do meu dia a dia. A cor do céu, a cor das meias da amiga, o nome completo da amiga, cada brincadeira que havíamos feito, a descrição completa de cada folha de bloquinho colorido e com cheiro que trocámos, para as respectivas colecções. Eu era minuciosa. Hoje, além de não conseguir ler esses diários (é demasiada descrição!), utilizo-os para um propósito ainda mais intragável: divagar. E se fosse assim, e se tivesse sido assado. Acho que vai ser cozido, a minha intuição diz-mo, estou quase certa. Os anos fizeram com que eu me arrogasse no direito e capacidade de prever o futuro. Muitas vezes prevejo mesmo, com seria de esperar de uma pessoa quase idosa, como eu. Neste mundo, os padrões repetem-se um número considerável de vezes, embora a sabedoria deva dizer que devemos manter a mente aberta e não analisar a realidade com muitas certezas e preconceitos. Tenho pena da pessoa que algum dia tiver de ler os meus diários, espero que isso nunca venha a acontecer a ninguém. As partes divertidas estão em blogues e na minha memória, algumas já com partes significativas apagadas pelo tempo. Lembro-me de uma ou duas descrições mais engraçadas, apesar de tudo. Talvez um dia destes eu venha aqui transcrever algumas coisas. Se eu tiver coragem de me pôr, efectivamente, a ler os bichos. Entretanto, creio que encontrei uma solução de organização de diários: em dossiers cheios de folhas, coloco as divagações. Em bloquinhos, caderninhos, livrinhos e agendinhas mais bonitinhos, escrevo as coisas que é suposto serem para se ler. Assim tenha eu tempo de escrever seja o que for...


domingo, 17 de setembro de 2017

Go to a U2 Concert


"Só sei que escolheram para ir a Coimbra exactamente no ano em que eu lá estava. Devo, portanto, felicitar o grupo pela excelente escolha. Sei também que, nos dias imediatamente antes, a cidade ficou absolutamente caótica. Estava eu, descansadinha, às compras no Jumbo do Dolce Vita, muito atarefada porque esperava visitas, em parte, mas de forma muito particular por estar ainda em processo de instalação de mim mesma, quando tento sair do Centro Comercial e não sou capaz. Não sei quantas horas levei a fazer um percurso que, normalmente, é feito em cerca de 4 minutos, pouco mais quando há trânsito. O espaço ao redor do Estádio Cidade de Coimbra estava absolutamente submerso em camiões gigantescos, negros e amarelos. Tive de ir dar uma volta enorme porque não pude seguir o meu caminho normal. Quando cheguei a casa, estavam as visitas prestes a chegar, e a comissão instaladora que estava a auxiliar-me com o processo de instalação, prestes a sair. Pequenos pormenores que avivam a memória de dias magníficos! Queria muitos mais como estes.


Gosto de ter visitas. No sábado, eu e as visitas só nos despachámos para sair de casa quase a meio da tarde. Fomos ao Dolce tentar comer alguma coisa, mas foi deveras complicado, afinal de contas, esse dia já era dia de Concerto dos U2, e estava tudo cheio de gente. Ainda por cima, o tempo não estava a facilitar muito e chovia lá fora. Fomos passear pelas lojas, encontrámos gente conhecida (pouca, afinal de contas, quem é que tinha conseguido bilhete para o dia 2??), deambulámos por ali horas a fio. Eu já andava armada em pessoa poupada; acho que resisti àquele banho de lojas sem comprar absolutamente nada. Ainda tentámos andar um pouco pela cidade, mas em vão. Fora aconselhado a quem não tivesse mesmo de ficar para o fim de semana, a fugir dali para fora. Sei de quem o fez, e fez muito bem, porque muitas áreas da cidade estavam absolutamente intransitáveis. Havia polícia por todo o lado a fechar muitas vias. A loucura total. Ainda cheguei a pensar: mas quem é que estes gajos pensam que são para manipular assim a vida de uma cidade inteira? Mas imediatamente calei este pensamento, por motivos óbvios.


Ainda conseguimos ir até à Praça da República, mas pouco mais. Desistimos da cidade, agarrámos na viatura e dirigimo-nos novamente ao Dolce. Jantar agora bem mais calmo, cá fora na esplanada, ao som do concerto dos U2 que a essa hora já decorria a todo o vapor. "Aaaiii, os meus U2!! Quem me dera já lá estar" - gritava alguém de nós, em desespero. Que tortura! Já eu, achava que ainda bem que fiquei para último; se não tinha de aguentar a ideia de o meu concerto já ter passado e haver gente que continuava a divertir-se. Seria certamente, muito difícil. Preferi assim, mas houve quem quase morresse de ansiedade. A seguir ao jantar ao som dos U2 - e é que não se ouvia mesmo nada mal - fomos ver um filme em que já andávamos de olho há muito - O Aprendiz de Feiticeiro, com o Nicholas Cage.


E lá fomos. Estava a malta toda contente a ver o filme - bem giro por sinal - mais uma vez, também, ao som dos U2, quando chega o tempo do intervalo. Entretanto, uma marmanja grávida do Norte levanta-se, corre até à porta da saída de emergência e abre-a. Qual não é o nosso espanto quanto conseguimos, a partir dali, uma vista privilegiada para o Estádio onde actuavam os U2!! Houve gente a ficar histérica, outros a congratular a grávida que gritava "Eu sabia, eu sabia, eu tinha cá um feeling, eu tinha de experimentar, era mais forte que eu! Estive no Estádio no dia seguinte, mas jamais esquecerei a vista que tive dali: estava apenas a alguns metros da parte superior da estrutura (o aranho, como lhe chamou um amigo meu), onde estavam colocados os écrans gigantes que nos permitiam ver melhor o que se passava em cima do palco. A vista para o estádio era simplesmente espectacular: via-se tudo a partir de uma das pontas; o estádio a abarrotar de gente, uma multidão de flashes de máquinas fazia parecer que o negro da noite brilhava de brilho próprio. A audiência estava completamente ao rubro, absolutamente rendida. Fiquei extasiada com uma das visões mais belas que tive em toda a minha vida e questiono-me se os bilhetes atrás do palco, aqueles de  30 euros, mais baratuxos, que ninguém quer, seriam assim tão pouco bons. Mas enfim, não tive tempo de ponderar esses prós e esses contras, pois rapidamente veio a segurança toda a correr para nos expulsar; uma senhora segurança armada de cara feia; claro, a ela não fazia diferença, afinal de contas estava ali a assistir a tudo!


Houve gente que já nem viu o filme como deve ser, da excitação! Houve gente que me deu cabo do juízo o tempo todo até casa. Quando estávamos a sair do filme, estava o pessoal a começar a sair do concerto e nós apressámo-nos para não levar com a barafunda em cima. Apressámos-nos, enfim, eu tentei apressar-me, mas houve que não estugasse o passo assim tanto.


O domingo foi inteiramente dedicado aos U2. Já não me lembro bem, mas acho que comemos uma porcaria qualquer em casa para não estarmos a perder tempo a tentar almoçar num shopping completamente inundado de gente. Depois, a malta toda a aprontar-se muuuito bem, não fosse alguém ter visão especial lá do palco e ver o pessoal descomposto! Mas mesmo assim, houve metade da toilette que não consegui fazer, porque havia gente a stressar completamente, aos gritos "Despacha-te, os meus U2!!"; nem tive tempo de pôr o telemóvel a carregar caramba! Tinha lá os meus amigos todos naquele Estádio e mal lhes pude enviar sms, porque não tinha bateria no telemóvel!



A entrada foi muito fácil: quem sabe, sabe. Levámos apenas 10 minutos a pé até ao Estádio; depois dividiram-nos por filas, consoante fosse a porta por onde deveríamos entrar. Esperámos meia-hora, de rabo assente no chão, até que as portas abrissem e a entrada começasse a fazer-se. O stress foi sim para o resto do pessoal que vinha de autocarro, pois tiveram dificuldade em chegar a tempo - os autocarros que se falou que se haviam de organizar partindo de alguns locais do país e que sempre se organizaram. Os U2 são, definitivamente, milagreiros. Havia quem já desesperasse, quem já achasse que o autocarro não ia chegar a tempo, porque entrou por norte (para ali seria sempre melhor a entrada sul), como fazem, aliás, todos os autocarros, mas esses não costumam ir para o Estádio e sim para a Rodoviária. Depois do stress, já estávamos nós dentro do estádio, entrada fácil fácil, sem barafunda, houve quem começasse a achar piada aos seguranças que, felizmente, nos fizeram passar por maravilhosos, práticos e rápidos detectores de metais, nada de outros procedimentos deprimentes. Foi rápido e fácil encontrar a porta, foi rápido e fácil subir a escadas e encontrar nova porta que desse para a espectacularidade do estádio. Estava preocupada, porque o resto dos meus amigos estava tudo no relvado, e estava mesmo com muita vontade de chover... só nós, nós, VIPS, nas bancadas!! E não das bancadas descobertas: nós estávamos mesmo debaixo das bancadas cobertas... haja sorte! Ainda choveu um bom bocado, mas felizmente, algum tempo depois do concerto começar, a chuva parou.





Tadinhos dos Interpol! Por um lado é interessante ir abrir o concerto dos U2, mas por outro é desgastante! O público não vibra da mesma forma, afinal estão ali para ver os U2. Mas deram um show fabuloso, eu gostei imenso! O vocalista é que se foi embora dizendo: "Vá... fiquem lá com os vossos U2!!"... Esses gajos, directa ou indirectamente, são um bocado sanguessugas (isto estou eu a dizer...); opá, coitados, mas não têm culpa de serem tão amados!!





Estávamos exultantes e saltitantes nos nossos lugares, comíamos e conversávamos quais matracas descontroladas. Nada de lixarada, hein? Tudo para dentro de um saquinho que a menina do costume havia trazido para o efeito! Deu tempo ainda para trocarmos muitas impressões e sms com o resto do pessoal que por ali estava espalhado. Decorreu ainda bastante tempo desde o momento em que entrámos até ao momento em que eles começavam a actuar. Incrível como uma pessoa consegue ficar com algumas dores de barriga só da excitação! Claro que os U2 tinham já o seu kit anti-chuva; uns cogumelos fantásticos, transparentes e tal, tudo muito giro, muito giro, como sempre. Tivémos também direito a relógio onde eram assinalados os segundos que passavam, qual passagem de ano. Quando eles finalmente entraram, foi fumarada para todos os lados, e gente aos guinchos também. A loucura total, mesmo. Entraram logo a chamar Briosa à nossa maravilhosa cidade; esta malta sabe-a todinha (e porque não?).











E a partir daí foi sempre a abrir. Fiquei rouca de tanto cantar, fiquei exausta de tanto dançar. Uma pessoa esquece-se que o resto do mundo existe. Naquele momento só existimos nós e a música, mais nada. É simplesmente transcendental. E, tal como alguém dizia na TV, aquando a última vinda dos U2 a Portugal, antes desta, alguém que aguardava por vez na fila para comprar os bilhetes: "não dá para explicar; acho que é algo espiritual". Está tudo dito. Eu também gostava de saber o que é que eles têm que os outros não, tenho dificuldade em explicar; talvez a facilidade em criar proximidade que o Bono tem, e música mesmo muito boa; e isso vale só por si. Uma enorme capacidade de desenhar melodias que se entranham, que ficam connosco, arrastando as próprias letras. A música deles flui com uma facilidade incrível; as letras memorizam-se sem darmos conta. Ouvimos uma vez e outra e outra e apetece sempre ouvir.


No fim, como sempre, a javardice do costume... mas nós, não! Estávamos exaustos, mas levámos o saquinho de plástico tranquilamente para casa!!"
(17 de Julho de 2011)


Para saber ao certo como foi o concerto: aqui.

U2 Versus Antígona - Parte II


"Não sei quem venceu... se Bono Vox e a sua trupe, se a desgraçada da Antígona e o rio de sangue vertido daquela história sem original desfecho... acho que no fim ganharam todos, porque consegui as duas coisas... ver a peça e ter os bilhetes dos U2. Diga-se antes, consegui as três coisas: além de tudo, consegui realizar um louco sonho secreto, daquelas anormalidades que eu às vezes tenho e que ninguém compreende, ou pelo menos pouca gente, o que me deixa exultante de felicidade, pois não existe nada mais fashion do que ser-se incompreendido; com o tempo, aprendemos a transformar certas coisas de um tormento a uma brincadeira - eis a verdadeira libertação... afinal de contas, quem perde não sou eu... mas adiante, que não é esse o assunto da presente missiva. E onde ia eu? Ah! No louco sonho secreto de passar uma noite ao relento à espera de um bilhete para os U2... e este nem foi propriamente a sua concretização mais literal, foi uma versão alternativa bastante aceitável... pois no meu louco sonho secreto, eu dormia à porta de um qualquer recinto grande numa qualquer grande cidade, de tenda e material de campismo, e manta de trapos, pique-nique, música, baralho de cartas, com um bando de amigos atrás... mas a versão alternativa não lhe fica aquém... os amigos não os levei de casa, encontrei-os por lá mesmo, de há longa data, amigos, conhecidos... até um antigo professor meu que, face ao meu desabafo "mas que grande doideira", não fez mais se não concordar prontamente... "só os U2 me fariam cometer uma loucura destas..." - dizia... e eu pensava que não seriam apenas os U2 que me fariam a mim cometer uma destas loucuras, mas uma daquelas forças que me acometem de quando em vez, uma daquelas a que eu não consigo resistir, que tenho de fazer, seja ela loucura ou não... Entretanto eu punha a conversa em dia, conversa de há longa data, por sinal... gente que não me via há milénios pareceu-me estranhar certa mudança, porém... há coisas que nunca mudam e isso quem me conheceu percebe... não necessita grande sensibilidade para descortinar que apenas sou eu mais eu que nunca... e uma amiga que, enquanto estivémos a tagarelar dentro do carro, ligara as luzes, e depois de sairmos se esquecera delas ligadas... amiga que tinha com quem se revezar e chegando às 6 da matina (hora em que a festarola começou a arrefecer, diga-se de passagem) chegou o "revezo", pelo que a moçoila logo deu à sola, cheia de sono que estava, e de canseira em cima do costado, afinal de contas sempre é sexta-feira, fim da semana para aqueles afortunados que têm onde trabalhar ou desafortunados que não têm forma alternativa de subsistir neste mundo. Daqui a nada volta ela que não tinha bateria, que tinha deixado as luzes acesas, e vai a malta toda empurrar o carro, eu também queria, mas eu era a única mocinha, o resto eram tão só marmanjos, pelo que desisti de me armar em carapau de corrida e lá os deixei ir empurrando o carro ladeira a baixo, o carro aos solavancos, eu a correr atrás, pois não queria perder o desfecho da história... iria o carro chegar a fundo da descida sem pegar? A pobre moça ainda sofreu um insulto disfarçado de bom humor, do tipo "gaijas", sai lá daí, deixa ir um gaijo para o teu lugar... mas creio que a insultância não fora compartilhada pelos demais gaijos, pelo que nova tentativa foi feita e o carro lá foi... sms a caminho: vai dar uma volta com o carro ou bateria volta a descarregar; ela: quero cá saber, que se lixe, logo se vê, o meu pai mais os cabos dele que se amanhem, que é para isso que foram inventados os pais... e os cabos (ok, não foi nada disto, mas isso agora não interessa nada). Não sei se foi para isso que os pais foram inventados, sei que os meus dois foram-me lá levar um cobertorzinho, comidinha, livrinhos para ler, and so on, and so on. Ahhh... é boommm ter pais assim... :) Claro que eu apenas usufruí das encomendas quando mais ninguém aguentava e começou tudo a recolher aos carros ou coisa do género, já que a hora da abertura da loja estava para breve (e, neste caso, faltarem duas horas é estar para breve), assim como a hora da verdade; quem fica com que bilhetes e coisas assim... além disso, havia que preparar para mais outra longa jornada de espera... afinal a abertura da loja ia simplesmente significar que a fila ia começar a encurtar, o que, para suceder, requereria o seu tempo...
Mas até lá foi um ir e vir de carrinhos de cervejas, alguém arranjou grelhador, assaram-se castanhas e febras também... arranjou-se também guitarra, ou viola, não sei, sei que o rapaz cantava que se desunhava, ele era faduncho, ele era o que lhe vinha à cabeça... até palmas por ali se bateram, às tantas da madrugada, a sorte é que por aqui ainda os centros comerciais se vão fazendo depois que acabam as casas e não em cima delas e as cidades não crescem tão depressa que os seus limites atinjam os dos templos do consumo a velocidade detectável por sentidos menos atentos... e já que não se podia fazer a festarola à porta do centro comercial, que o dono não deixa que sujemos o relvado (mesmo assim por lá ficaram caricas em considerável quantidade, certamente superior à que seria desejável, algumas delas ainda lá estão, marcando o acontecimento), vá de se fazer a festarola noutro sítio qualquer... na rotunda, pois bem, para combinar com a tosga...
Nunca um banho me houvera sabido tão bem... nunca a minha roupa de dormir me parecera tão macia e confortável... nunca as camas e sofás desta casa me pareceram tão acolhedores e irresistíveis (ok, minto, isto é só porque eu não sabia o que dizer para terminar o post; milhentas vezes cheguei em estado semelhante - ok não tão desgraçadamente - a casa e me atirei ou para dentro da banheira ou para vale de lençóis)... mas uma coisa é estranha... eu já tinha um bilhete... e mesmo assim uma sensação magnífica de vitória... a pessoa maravilhosa responsável pelo meu outro bilhete sabe que lhe estou grata como se tivesse ficado com ele... mas este que eu consegui tem uma história... foi conseguido com as gotas do meu suor... ou melhor, com os tremeliques do meu tiritar numa noite de Outubro, um Outubro mesmo assim não tão frio como outro qualquer Outubro dos Outubros da história das temperaturas à porta do Forum..."
(11 de Novembro de 2009)


Antígona Versus U2 - Parte I


"Eu estava na net (a probabilidade de isso suceder seria sempre alta). Estava a conversar com uma amiga. Estava a comentar que tinha bilhetes para essa noite, para uma peça de teatro que era um clássico e eu, por norma, gosto de clássicos; sobretudo, tenho curiosidade... talvez por retratarem uma época, formas de pensar distintas, enfim... estava com a noite delineada... já não havia mais novidades... e pronto.

Até que vêem de lá as letras dela e me dizem... que um amigo ia dormir para a porta da Worten do Forum... porque estavam lá a vender bilhetes... para os U2. Eu ainda pensei que fosse engano... então eu tinha estado na semana anterior, feita louca, a apanhar sol nas filas em Coimbra (acho que piorei da constipação por causa disso...) e agora, apenas uma semana depois, era simplesmente assim?? À porta da Worten?? Claro que eu ia tentar novamente... mas estava a fazer figas para o ticketline não voltar a empacar... afinal de contas, desta vez já seria menos gente a tentar aceder... (seria mesmo??) Provavelmente não. Tanto não seria, que no próprio site avisava que não se responsabilizavam por eventuais desilusões... e que esperavam muitos acessos... e eu com os bilhetes do teatro na mão... não ia deixar de ir... fui. Até fui às nossas docas secas, até bebi um Irish Cofee (há quanto tempo, já nem me lembrava do quanto gosto daquilo!!)... e até liguei ao tal amigo que, ao contrário do que ainda pensei, me confirmou: sim, aqui mesmo, na cidadezeca - haviam uns miseráveis 500 bilhetes, mas who cares!! Acho bem que os tenham distribuído um pouco por todo o país - Ainda há bilhetes para quem chegar agora, dizia-me ele... mas eu não posso chegar agora, pensava eu... liga-me a mamy... o ticketline diz que prevê muitos acessos... tou lixada - penso eu, outra vez. Quero lá saber, vou ao teatro e depois vou para lá dormir... então eu vou lá guardar-te vez, se não perdes novamente a oportunidade de comprares bilhetes - a mamy... e eu desfiz-me em agradecimentos, prometi logo limpar umas 500 máquinas a abarrotar de louça!! Nem sei bem como, lá vi a Antígona... coitadita da rapariga, a vida corria-lhe mesmo mal, bem pior do que aos que decidiram passar a noite em claro a responder a chamadas de tantas em tantas horas (não me estou a queixar, a sério!!); estou em crer que no final morreu mesmo toda a gente (na peça de teatro, bem entendido), já não me lembro se o extraordinariamente rígido Creonte - quiçá, o mau da fita - morre ou vive... mas se viveu deve ter sido só mesmo ele... foi extermínio total... fosse o nosso modesto Teatro das Beiras menos modesto (em termos monetários, que em termos de talento, não existe qualquer modéstia por aquelas bandas!!) e aquilo teria sido um autêntico épico sangrento, qual Alexandre o Grande (belhac)... de Creonte não me lembro, curiosamente; lembro-me melhor das cenas espreitadas por entre as sms que ia recebendo ao longo da noite: "são 500 bilhetes, se cada pessoa levar 4, dá para 125 pessoas... tu és o 127, mas já desistiram bastantes, pelo que dá mesmo para ti"; "ouvi dizer que iam vender bilhetes para os U2 aqui na Worten... será mesmo verdade??" - e coisas que tais... e eu a responder e a espreitar a maluca da Antígona a choramingar no palco que nunca mais ia ver a luz do dia, porque resolveu enterrar o corpo do irmão, que morrera lutando contra a causa de Creonte, e que, por isso mesmo, este proibira de enterrar... sob pena de morte... a Antígona tinha uns senhores tomates, hã? Foi desta para melhor, mas pelo menos foi direitinha!! Disse para ali umas coisas jeitosas ao Creonte...  toma lá que já jantaste... mas o outro que não, que não, que não e não sossegou enquanto não viu toda a gente morta, e nem foi de morte morrida, foi mesmo de morte matada... diz que se inebriou por estar a vencer uma guerra que todos julgavam perdida... excesso de confiança... e de estupidez também, pois que mal têm umas pázitas de terra em cima do outro desgraçado? Depois vem o que eu chamo de efeito dominó: nestas peças, quando começa um a morrer, aquilo vai por ali fora, nunca mais acaba... enterraram a Antígona viva, estado no qual não deve ter perdurado muito mais tempo; sabendo da desgraça, Hêmon, noivo de Antígona e filho de Creonte, vai e enterra uma bela de uma espada, grande e afiada, no seu próprio bucho... e vai a mãe do Hêmon, mulher do Creonte, e enforca-se, por saber que o filho havia morrido... bem, de uma coisa não os podemos acusar: excesso de originalidade, pois se existe alguma é em inventar formas diversas de morrer e pouco mais. Gostava de saber que raio de piada era esta que em tempos idos se achava a matar tudo quanto era alminha que participasse de histórias ou contos, ou coisa que se lhe assemelhasse... se bem que os entendo; sempre era uma fuga à rotina (ou talvez não) e escusavam de estar a ter trabalho em pensar o que fazer às personagens... mas ná, ná, meus amigos, então, isso é batota!! Onde já se viu?? E o resto, pessoal?? Não contam o resto?? Hummm... gosto de clássicos, mas devo considerar que a estes senhores faltava... visão... sim, essencialmente isso, visão; não conseguiam ver para lá daquilo mesmo... e comparando os sacrificados de Antígona com os sacrificados dos U2, bem se vê... é que uns não escaparam, enquanto que os outros não só escaparam, como os que se sacrificaram, TODOS conseguiram bilhete!!"

(2 de Novembro de 2009)



Antígona de Sófocles, por Brecht



Gosto de consumir cultura e arte. Muitas das minhas experiências mais significativas dizem respeito a isso mesmo, pelo que faço colecção de folhetos, bilhetes de tudo aquilo a que fui assistindo e que fui fazendo de há uns bons anos para cá. Para mim é um motivo muito significativo para haver convívio com amigos. O simples sentar na mesa do café sem fazer nada a dar à língua não é, definitivamente, o meu ideal de convívio. Para mim, sentir que estou a fazer algo de útil, a aprender alguma coisa, a evoluir de alguma forma, é algo de absolutamente essencial ao meu bem-estar. A cultura nem sempre foi o que é neste país. Apesar de tudo, acredito que vivemos uma época como nunca houve outra, porque o regime salazarista desincentivava o consumo do que quer que fosse que não lhes dissesse respeito aos interesses deles. Depois do 25 de Abril, as pessoas não se mobilizavam para ir ao teatro, a concertos, foram influenciadas a achar que tudo isso era uma seca. Entretanto, houve  um governo que reabilitou uma série de salas pelo país fora e estimulou a cultura de forma bastante significativa, o que me afectou de forma determinante e creio que ao país também, pelo menos nesse aspecto. Eu e a minha vida, nunca mais voltámos a ser os mesmos. Mas comecemos não pelo início; antes por uma ponta: Antígona, de Sófocles, por Brecht. Também ao meu passado dizem respeito outros blogues, assim como posts que anteriormente realizei nesses mesmos blogues que acabei por tirar de circulação por entender que já não faziam sentido. Revejamos tudo isso.




"Cruzadas, guerras santas, choques civilizacionais, interesses económicos, guerras preventivas, territórios ocupados. Ontem como hoje o cenário do mito Antígona atravessando os séculos sem envelhecer, para desconsolo e angústia dos que amam a paz e se indignam com tanto atropelo aos direitos de todos os homens. Quando a Humanidade parece estar esquecida da sensatez e os ares pesam sombrios e violentos, sobre tanto céu do nosso planeta, pode a arte do teatro ficar de fora no desafio à reflexão sobre a nossa própria conduta? Na busca incessante de um repertório onde a condição humana seja retratada, chegámos a um dos mais fascinantes momentos da origem do teatro, legado da Humanidade; a tragédia grega, que segundo Aristóteles "é a representação de uma acção memorável e perfeita, de magnitude competente, recitando, actuando, cantando, declamando cada uma das partes, por si e separadamente e que move a compaixão e o terror expostos À moderação destas paixões". A obra apresenta o dilema do entendimento da contradição entre dois conceitos fundamentais do direito; o direito do indivíduo e o direito do estado. Creonte despensa as obrigações implícitas aos laços de consanguinidade, e Antígona valoriza-os ao ponto de assumir um conflito com o Estado. Ambos actuam com a intransigência que caracteriza os heróis. Duas fontes antagónicas do direito com dois protagonistas de poder desigual. O conflito entre a lei divina e a humana deixa visível o inevitável contraste entre a autoridade masculina, ditada por Creonte, e a resistência feminina, encarnada por Antígona. Esta tragédia permite-nos a reflexão sobre o mito, a solidão, a condenação, o suicídio, a morte. A versão de Brecht é realizada no rescaldo das cinzas da segunda guerra mundial. Antígona, o texto de Sófocles, representado pela primeira vez no ano de 422 aC tem exercido um particuar fascínio sobre gerações de espectadores e criadores despertando o desejo de o redescobrir à luz de novas reflexões, actualizadas na passagem dos tempos. A introdução de um prólogo contextualizado no ambiente deste conflito esclarece de forma definitiva e inequívoca o sentido universal e ao mesmo tempo contemporâneo desta obra. A nossa proposta procurará uma abordagem intemporal e metafórica que terá como pano de fundo os conflitos e o debate civilizacional que assola a sociedade contemporânea." 
(retirado do folheto informativo fornecido antes da peça) 


 "Antígona (em grego Ἀντιγόνη) é uma figura da mitologia grega, filha de Édipo e Jocasta. A versão clássica do mito sobre a Antígona é descrita na obra Antígona do dramaturgo grego Sófocles, um dos mais importantes escritores de tragédia. Esta obra é a terceira parte da Trilogia Tebana, os quais também fazem parte Édipo Rei e Édipo em Colono. A peça é feita pelo prólogo, que nesse caso é dialogado, onde as irmãs Antígona e Ismênia conversam e nos dão uma visão geral dos acontecimentos; cinco episódios; cinco estásimos, que são as entradas do coro em cena trazendo informações ao público sobre o assunto da peça; e o êxodo, parte final. Filha de Édipo e Jocasta, que tinham mais três filhos, Etéocles, Ismênia e Polinice. Foi um exemplo tão belo de amor fraternal quanto Alcestes foi do amor conjugal. Foi a única filha que não abandonou Édipo quando este foi expulso de seu reino, Tebas, pelos seus dois filhos. Seu irmão, Polinice, tentou convencê-la a não partir do reino, enquanto Etéocles ficou indiferente com sua partida. Antígona acompanhou o pai em seu exílio até sua morte. Quando voltou a Tebas, seus irmãos brigavam pelo trono. Polinice se casa com a filha de Andrastos, rei de Argos, e junto com este arma um ataque contra Tebas, que é chamado de expedição dos "Sete contra Tebas" onde Anfiarus prevê que ninguém sobreviveria, somente o rei de Argos. Como a guerra não levou a lugar nenhum os dois irmãos decidem disputar o trono com um combate singular, onde ambos morrem. Creonte, tio deles, herda o trono, faz uma sepultura com todas as honras para Etéocles, e deixa Polinice onde caiu, proibindo qualquer um de enterrá-lo sob pena de morte. Antígona, indignada, tenta convencer o novo rei a enterrá-lo, pois, quem morresse sem os rituais funebres, seria condenado a vagar cem anos nas margens do rio que levava ao mundo dos mortos, sem poder ir para o outro lado. Não se conformando, ela enterra Polinice com as próprias mãos e é presa enquanto o fazia. Creonte manda que ela seja enterrada viva. Sua irmã Ismênia tenta defendê-la e se oferece para morrer em seu lugar, algo que Antígona não aceita, e Hêmon, seu noivo e filho de Creonte, não conseguindo salvá-la, comete suicídio.Ao saber que seu filho havia suicidado Eurídice, mulher de Creonte, também se mata." 
(da Wikipédia)


Sobre a companhia de teatro: " O TEATRO DAS BEIRAS foi fundado em 7 de Novembro de 1974 com o objectivo de produzir espectáculos teatrais com regularidade. A partir desta data o Teatro das Beiras produziu mais de sessenta espectáculos de autores tão importantes como Gil Vicente, Goldoni, Brecht, Aristofanes, José Triana, Molière, Pirandelo, etc. Com estes espectáculos o Teatro das Beiras realizou mais de 2.000 representações para mais de 200.000 espectadores, tendo participado em festivais de teatro por todo o país. Em 1994 ao atingir os 20 anos de actividade ininterrupta, o Teatro das Beiras caminhou para uma nova etapa: a profissionalização da companhia de teatro, que veio a acontecer em Novembro desse ano. Em Janeiro de 1998 é atribuído à Companhia o Diploma Utilidade Pública. Todos estes anos de actividade profissional desta companhia, provaram a eficácia e consistência pela quantidade e qualidade do teatro produzido e da sua relação com o público, a inevitabilidade da importância deste projecto. Os dados estatísticos embora francamente positivos em número de montagens, de espectáculos apresentados e do aumento muito significativo de públicos de todas as idades, não analisam aquilo que o Teatro das Beiras supõe poder contribuir no sentido formativo dos públicos que conseguiu sensibilizar, sem paternalismo, proporcionando a educação do gosto, a reflexão do mundo e do homem, no fundo aquilo que o teatro como espaço de reflexão sobre a condição e natureza do homem pode proporcionar. O trabalho regular e sistemático com o público da região cumpre uma missão de serviço público na democratização do acesso aos bens culturais, no qual nos orgulhamos de participar, mantendo um projecto de criação artística activo e preocupado numa cidade do interior. O número de espectáculos apresentados no espaço nacional, a convite de várias Instituições de promoção e divulgação cultural, atestam o facto desta companhia, comparticipar activamente no crescimento qualitativo verificado na produção artística nacional. O Teatro das Beiras é sem complexos um projecto de descentralização para a região da Beira Interior que assiduamente mostra o seu trabalho por todo o país."


Eu adoro, simplesmente adoro clássicos... eu sei que, geralmente, são dramalhões... e eu não acredito em dramalhões... mas há, de facto, algo que me fascina... aquela forma "trabalhada" de falar, sempre em recitação, uma vez que há um livro, um clássico, servindo de base aos próprios diálogos... as ideias e as formas de ver das diferentes épocas... a constatação da distância e simultaneamente da proximidade das questões colocadas... é sempre interessante a ideia de que a intransigência, assim como o esquecer dos sentimentos alheios, levam à ruína certa... claro que, nos dias de hoje, algo mais elaborado seria, talvez, mais adequado, afinal de contas, somos mais complexos... mas é curioso, pois a arte de hoje foi construída em cima dos alicerces lançados por este tipo de obras, que hoje constituem estereótipos, alguns deles semi-obsoletos, outros desconcertantemente e "preocupantemente" actuais. Há muito que não assistia a teatro; e de cada vez que o faço, recordo-me do quanto gosto de teatro... da representação partilhando da mesma atmosfera de quem assiste... sentem-se as energias, as vibrações... acho que a partir do momento em que possui alguma qualidade, é sempre um espectáculo único.
(28 de Outubro de 2009)



 Creio que este foi o dia, ou melhor, a noite, em que os bilhetes para os U2 foram postos à venda um pouco por todo o país, para um segundo espectáculo, a realizar-se num domingo, uma vez que o primeiro espectáculo, a realizar-se num sábado, estava esgotado. Lembro-me do que penei para tentar conseguir bilhetes para sábado, do que pedi à minha mãe que tentasse alguma coisa na net. Estava a dar aulas a adultos, nessa altura. E estava a tentar trabalhar com a questão dos bilhetes latente (difícil). Caramba, não é que fosse assim tão importante. Mas que raio, não havia de morrer sem ver os U2! Na altura, eu gostava bastante (e agora ainda gosto, só já não é tanto). E tinha motivos muito especiais e afectivos para querer estar no Estádio Cidade de Coimbra no dia do concerto. Mas para sábado, nada se conseguiu. Entretanto, a gente que ficou de fora foi tanta ou tão pouca, que os managers e essa malta toda lá puseram em andamento a novidade: os U2 iriam dar um segundo espectáculo em Portugal, logo no dia a seguir ao primeiro. E desta vez, haveria bilhetes um pouco por todo o país. Anteriormente, tive de me deslocar a Coimbra se quis pelo menos tentar comprar os bilhetes. Lembro-me de, no fim de semana anterior, ter ido a Coimbra de propósito ver se conseguia alguma coisa. Chegámos mais ou menos cedo, mas já a fila saía da Worten do Centro Comercial Dolce Vita do Estádio, e dava uma bela curva por ali fora. Ainda me pus na fila, mas a certa altura alguém vem dizer-nos que já só faltavam não sei quantos bilhetes. Fizeram-se as contas e muita malta foi para casa. Foi simpático, afinal poupou ainda mais espera em vão a muita da gente que ali estava. Estávamos a falar de comprar bilhetes para um concerto que se iria realizar dali a mais de um ano. Eu nem sabia muito bem onde iria estar a trabalhar nessa altura, se seria fácil ou difícil chegar a Coimbra no dito fim de semana... Mas a este respeito, continuarei a falar no post seguinte.


sábado, 16 de setembro de 2017

See snow



A primeira vez que eu vi neve era miúda. Cheguei, ao longo da minha vida, a ver neve ao pé de casa, uma raridade no país em que vivo, de clima cada vez mais quente.

Lembro-me de estarmos a subir a Serra da Estrela e eu começar a ver uns farrapos de neve junto à estrada. Comecei aos guinchos, a dizer ao meu pai que parasse o carro, que eu queria ficar já ali. "Mas mais lá para cima há mais, isto não dá para nada, não dá para brincar", diziam os meus pais. Queria lá eu saber, eu queria era mexer naquilo.

Quando saí do carro e finalmente senti a neve nas minhas mãos pela primeira vez, senti-a já num estado próximo do gelo. A neve estava escorregadia e gelada à superfície. A vida tinha-me reservado a experiência da neve fofinha para mais tarde. Fazer um boneco de neve, coisa que eu tanto queria, naquelas condições, revelou-se bastante mais complicado do que eu havia suposto. Afinal, parecia que havia de ser só fazer umas bolas com a neve. Pois, mas se com ela fofa é mais complicado do que parece, com ela gelada é muito complicado. Acho que ainda fiz uma coisa esquisita qualquer, assim uma espécie de mini-monstro dos esgotos, muito mal amanhado, acho que anda lá por casa dos meus pais o registo fotográfico.

Creio que ainda foi na Serra da Estrela, mas uns bons anos mais tarde, que eu vi cair neve a valer pela primeira vez. Cair do céu, lá de cima cá para baixo. Já havia visto na minha cidade certa vez, mas foi tão pouco que mal se havia percebido. Dessa vez, pude senti-la fofinha, acabada de aterrar no chão. Uma experiência verdadeiramente mágica. Dessa vez, fomos também à Guarda, creio que depois da estarmos na Serra, e vimo-la vestir-se de branco, num sentimento que era um misto de deslumbramento e medo. Sim, medo de para ali ficarmos retidos, ou que algo esquisito acontecesse. Ao mesmo tempo que nos extasiávamos com o espectáculo. Dessa vez, não chegámos ao topo da Serra, porque a meio caminho demos com as estradas todas fechadas. E mesmo assim, ainda conseguimos passar para algumas que fecharam pouco depois da nossa passagem. Sem correntes nos pneus (andámos para comprar, mas nunca chegámos a fazê-lo), ainda vimos o carro deslizar. A sério, não tem graça nenhuma. Fomos apanhados um pouco desprevenidos, mas felizmente correu tudo bem. Foi dos dias mais mágicos e mais espectaculares da minha vida.

Um outro dia mágico e espectacular, foi um em que eu vi a minha cidade da altura (minha ex na actualidade), todinha coberta com um magnífico manto branco. Durante a manhã, toda ela se cobriu. Não houve aulas nas escolas e as "docas" estavam cheias de miúdos e graúdos a atirar bolas de neve e a escorregar por ali fora. Os carros à porta da nossa casa estavam completamente cobertos. A gata não quis aventurar-se a ir para o quintal explorar aquela coisa fria e esquisita. Mas que estava muito intrigada, isso estava. No facebook, as fotografias de neve multiplicavam-se. Era a loucura total. Fui muito feliz nesse dia.


Eat pasta in Italy - Parte IV

 (Burano)

Viajei por várias cidades do Norte de Itália: Bolonha, Veneza, Verona, Florença... Visitei outras cidades, menos proeminentes, mais igualmente belas, como Siena, Ravenna e a fantástica ilhota de Burano. Deve haver mais, mas agora é tudo o que a memória me permite recuperar. Muito andámos nós de comboio. Também andámos de barco. E a pé. Andámos muito a pé. Creio que também visitei Murano. Ah, e Pordenone. Ninguém ouviu falar de tal local (salvo seja), mas é uma cidadezinha encantadora, onde moravam (não sei se ainda moram), os tios de uma amiga da minha amiga, que havia estado em casa destes e, por algum motivo, não havia trazido toda a bagagem de volta para Portugal. Nós fomos lá buscar a bagagem restante da rapariga, já que íamos de passeio. Os senhores receberam-nos maravilhosamente bem. Lembro-me de ter tomado o banho dos justos e comido verdadeira pasta, só com garfo, numa mesa posta no jardim, ao pôr do sol, já mais para a noite do que para a tarde. A conversa não foi muito fácil, uma vez que só o tio da rapariga falava português. Eu deixei-me ficar caladinha a observar e a ouvir, que é assim é que se aprende. Eu era muito assim. Às vezes ainda sou. E quando não sou, acabo sempre por chegar à conclusão que devia ser mais. Em boca calada, não entra mosca nem sai asneira.

Na "casa Erasmus" da minha amiga, Bolonha, acabámos por não comer assim tanto. Decidi só pensar em colocar o essencial no frigorífico, a partir do momento em que soube que um espanhol me tinha comido o iogurte (sem que eu nunca chegasse a ver as trombas do dito cujo, salvo seja, e muito menos a dar autorização para que comessem a minha comida - nada contra, mas ainda hoje me irrita estar de pensamento fixo em algo que penso que tenho e depois vai-se a ver e afinal já não tenho). Tinha de ser um espanhol (nada contra os espanhóis, ok? só que... pronto). Mas dessa viagem retenho na memória algumas imagens magníficas e uma delas é a desse jantar e das silhuetas das coisas e das pessoas mergulhadas naquela pouca de luz restante. Eu sentir que nem acreditava naquilo tudo. Logo para mim que era tudo tão difícil. Uma coisa destas estava longe de passar pelas minhas melhores expectativas. E, aliás, tantas outras coisas que depois sucederam. 

(não continua. também, já chega de tanta pasta, não?)