domingo, 1 de outubro de 2017

Find True Friends



Uma lição triste que tive de aprender logo em tenra idade, é que muitos seres humanos não são aconselháveis, nem recomendáveis. Deixem-me contar-vos como foi que o processo de triagem evoluiu. Quando era bem pequenita, ia para a rua brincar com a miúdagem da vizinhança. Com frequência, as mães ficavam em casa, a maioria das vezes, nas lides domésticas, e deixavam os filhos ir brincar para a rua, mantendo-se de olho aberto. Bastava chegar à janela e espreitar de vez em quando. Era normal as crianças brincarem na rua. Eu adorava brincar na rua, à solta, chegar a casa toda porca e ensopada das correrias. E com frequência levava para casa, para brincar comigo, miúdas que encontrava aqui ou ali. Não me dava muito com rapazes porque achava que eles eram brutos e estúpidos e tinha a absoluta noção de que teria de esperar uns bons anos até conseguir chegar perto de algum. Nunca gostei de apanhar porrada, muito menos de dar. Não queria cá confusões para o meu lado. Comigo, ou era na base da paz, ou eu não estava para aturar cenas (ainda hoje é parecido, estando em causa outro tipo de porrada). O requisito principal era chegar à campaínha de casa, esse era o garante da nossa liberdade. Durante uns anos, tudo correu muito bem. Eu fazia parte de um bando de algumas dezenas. Era tão simples nessa altura; bastava perguntar "olha, queres ser minha amiga?". Normalmente, do outro lado, a resposta era sempre afirmativa. Eu era mesmo sociável. Acho que fizeram-no comigo algumas vezes, depois comecei eu a fazer e nunca mais parei, até andar próxima da adolescência: "queres ser minha amiga?".

Quando chegou a mal fadada era da adolescência, toda a gente começou a mudar e eu sem perceber o porquê. Acho que a minha evolução foi diferente, mais gradual. Olhava ao meu redor e não conseguia identificar-me com as pessoas, com o que faziam, com o que sentiam. Eu não estava assim, nem queria estar. Para mim, muitas coisas continuavam exactamente na mesma, e as que estavam a mudar, certamente não queria que fossem como eu via nas pessoas que estavam ao meu redor. Não gostava da forma como via as pessoas repudiar os seus pais e as coisas da infância, a necessidade doentia de se afirmar a toda a força, de fazer isto ou aquilo para ser assim ou assado, para encaixar no estereótipo do fixe e depois no fim, acabarem todos vestidos de igual, todos a fazer o mesmo. Continuo a achar que isso não é ser adolescente, isso é ser estúpido. E ser adolescente, não tem de ser sinónimo de estupidez e agressividade. Acho que isso é mais um reflexo da falta de educação do que outra coisa. Tinha de escolher as almas mais plácidas para me relacionar, o que nem sempre era um bom critério, mas das outras nem me conseguia aproximar. Por vezes apercebia-me que existiam pessoas relativamente dignas de interesse no outro lado, mas eram demasiado cobardes para se assumirem como diferentes da maralha. Aproximar-se de mim tinha esse significado: não andar com a maralha. Eu recusava-me a andar em bando, sobretudo um bando com o qual não me identificava. Fazer amigos, nesta fase, não foi fácil. Mas mesmo assim, tive momentos de maior sorte com as pessoas que me rodeavam em que consegui mesmo fazer amigos. Mas não sei o que sucedia, no tempo em que não havia facebook e que as pessoas normais não tinham net, essas pessoas acabavam sempre a sumir-se do meu horizonte. Ou então eu tinha de fazer um esforço louco para manter contacto e as coisas acabavam a perder o sentido.

Até que, depois de uma era de relativa solidão - considerei-o assim, já que gosto de estar rodeada de amigos, os quatro ou cinco que tinha não me chegavam, até porque não considerava as nossas amizades compensadoras - tudo mudou. De repente, vi-me rodeada de pessoas que gostavam de mim tal como eu era, que me aceitavam (a estupidez da adolescência acaba por passar a algumas pessoas, às melhores), ao mesmo tempo que eram pessoas de quem eu gostava. Algumas amizades aprofundaram-se mesmo e rapidamente dei por mim com uma rede de amigos que me ajudam e apoiam quando preciso.

Cresci a acreditar que era diferente e esquisita, em boa parte porque não tive muita sorte com as pessoas que se cruzaram comigo. Também acredito que alguns conceitos erróneos que fui formulando acerca da amizade me tenham afectado. Tive uma amiga que era mentirosa compulsiva, logo pequenina, na infância, no meio daquela malta toda com quem eu andava. Não era minha amiga, não era amiga de ninguém, nem o deverá ser ainda hoje. Mas eu era amiga dela. Acabei por interiorizar que amizade era dar e receber pouco em volta. Até que desisti de dar grande coisa. Mas nunca deixei de sonhar com amizade verdadeira e isso, um dia, veio para mim.

Entretanto, sei que poderia ir mais além. Ainda há coisas que faltam. E ainda bem. A nova fase, em termos de amizades, vai ser mais lenta, mas menos sobressaltada. Espero renovar as amizades antigas e conseguir criar novas tendo por base menos sintonia inicial do que as que agora considero tão preciosas. Os critérios que vão presidir ao avanço ou não de uma amizade não serão os que foram até aqui. É o início de uma fase trabalhosa, mas que me vai levar mais longe e fazer avançar. E isso é tudo o que uma pessoa mais pode desejar.


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